Ah, Que Saudade do Meu Ernesto…

Ah, que saudade do meu Ernesto…

Saudade do meu companheiro, meu marido, meu amigo. Tantos anos passamos juntos, agora, há tantos outros estamos separados. A sua metade da cama permanece vazia, intocada, perfeitamente imaculada, preenchida somente pela melancolia e pelas lembranças de nossos momentos mais íntimos.

Ah, que saudade do meu Ernesto…

Saudade de seus acertos, mas, principalmente, de seus erros. Erros tolos, simplórios, e, por isso, tão humanos. Sinto falta da forma como você exibia seus defeitos, apenas para realçar minhas qualidades. Não pelo prazer de me sentir perfeita, mas pelo conforto de ser plenamente amada.

Ah, que saudade do meu Ernesto…

Saudade do amigo com quem compartilhava, desde os assuntos mais sérios, até as fofocas mais superficiais. Saudade do marido capaz de me inflamar ao mais leve toque. Que me fazia ruborizar ao revelar seus mais ardentes desejos, fazendo com que eu deixasse de ser a esposa e a mãe, mesmo que somente por alguns momentos, e me sentisse apenas mulher. Saudade do pai dedicado e disciplinador, capaz dos gestos mais sublimes, e dono de um amor incondicional.

Ah, que saudade do meu Ernesto…

Saudade das confidências, do abraço na varanda, do cafuné ao pôr-do-sol. Seu traços mais marcantes xerocopiados no rosto de nosso filho, faz-me lembrar de cada momento que passamos juntos. E que trabalho soberbo fizemos com nosso guri, hoje um homem honesto, de caráter indubitável, ótimo pai e marido. De fato, fizemos tão bom trabalho, que hoje ouso pensar mais em mim. Não quero mais sentir sua falta. Estou cansada. Muito cansada. Quero sossego. Quero teu colo.

Chega de Saudade. Não quero mais esse negócio de você longe de mim. Pode abrir os braços, meu amor. Eu estou chegando.

Olga colocou papel e caneta de lado. Acomodou-se na cama, reclinando com dificuldade as costas no travesseiro da cama. No criado-mudo, um belo abajur de porcelana iluminava o retrato do marido. Deitou na cama, repousando a cabeça no travesseiro previamente arrumado, retirando com cuidado a foto de dentro da moldura. Arrancou, um a um, os diversos eletrodos presos ao seu tórax, que monitoravam seus batimentos cardíacos. Retirou das veias do braço, as agulhas que introduziam soro em seu corpo. Colocou a foto em seu peito, cruzando os braços. Não poderia se despedir de seu filho Álvaro. Ele não a deixaria partir. Derramou uma última lágrima, antes do silêncio ser cortado pelo apito agudo do monitor cardíaco externando a ausência de pulsação.

Poucos minutos se passaram antes que o filho percebesse o ocorrido. Entrou correndo no quarto, deparando-se com o corpo enrijecido de Olga. No rosto pairava um ar de leveza, banhado por um sorriso de satisfação. Ao lado do corpo, o emaranhado de fios e eletrodos. Sobre o corpo, planava a foto de seu pai. Havia entendido tudo, e respeitava a decisão da mãe. Acendeu o abajur e avistou o papel deitado sob a caneta esferográfica. Aproximou-o da visão, lendo:

“Ah, que saudade do meu Ernesto…”

 

                                                                 FIM

Peço a todos aqueles que lerem esse conto, o pequeno trabalho de tecer um comentário sobre o mesmo, expondo suas críticas ou elogios, uma vez que inscreverei o mesmo em um concurso de contos, que tem como tema a frase “Chega de Saudade: Não quero mais esse negócio de você longe de mim” em homenagem aos 50 anos da música “Chega de Saudade”, composta por Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Sua opinião é de suma importância para este humilde escritor.

 

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Published in: on abril 28, 2008 at 3:07 pm  Comments (15)  
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15 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Cumpadre,

    Pode se inscrever, o texto está ótimo.
    Vou ficar na torcida e não será nenhuma surpresa sua vitória.
    Beijocas

  2. Gostei muito..com certeza vc sera um dos 10..escolhidos..apenas coloque chega de saudade e não de saudades….amor Mama

  3. Boa, yo. Este ficou ótimo….Algums colocações:
    1 – Altere para “chega de saudade”, ao invés de saudades;
    2 – Esta música tem algumas outras frases que você poderia aproveitar para fechar ainda mais a conexão. Exemplos: “..porque sem ela não há paz, não há beleza, é só a tristeza e a melancolia que não sai de mim..”

    Abraço,

  4. Raga,

    Muito bom! Reitero as mudanças sugeridas aí em cima, mas só!

    Boa sorte!

    Beijo,

    Van

  5. Ragas….

    Bom dia!

    É a primeira vez que li um dos seus contos, e só me estimulou para ler os demais.

    Gostei de ver…Parabéns!

    Bjs

  6. Querido Ricardo

    Apesar de vc. se referir a um casal senti nas entrelinhas muita coisa
    relacionada a saudade do seu querido pai Paulo que sem dúvida foi um ótimo amigo.A saudade não passa nunca mas pode ser sentida sem tanta dor da perda. Gostei muito do texto e espero que seja o início de varios,
    pois vc. tem talento
    Bjos Tay

  7. Gostei demais… não esperava por este final!!

    “Já ganhou!! Já ganhou!! Já ganhou!!”

    Boa sorte meu fofucho!!

    Beijocas

  8. Boa joe…
    manda ver…
    muito bom msm

  9. Gostei muito…bem melancólico e acho que essa foi a intenção…porém, acredito que a melancolia tornou-o um pouco repetitivo(na 1ª parte)!! Mas muito bom!!

  10. Ragas,

    Você está de parabéns. Achei muito bonito o conto. Sinceramente eu não esperava que tivesse todo este talento e sensibilidade para escrever…

    Como sugestão, vou na linha da Lu. Acho que algumas palavras poderiam ser trocadas por sinônimos mais leves, mais corriqueiros.

    Abraço,

    Gus.

  11. Parabéns Ragazzo!

    Mais uma vez vc se saiu muito bem!

    Mesmo sendo bastante comovente, o texto está muito bonito.

    Estarei torcendo por vc!

    Abraços

    Sonia

  12. Muito bom , Ricardo, acho que tem muita chance de ser um dos escolhidos.
    Se pudesse mudar alguma coisa deixaria enfatizado, nas entrelinhas, que a Olga estava não só renunciando a vida pela saudade do Ernesto, como também indo encontrá-lo em outra dimensão, pois ele tinha morrido Há algum tempo.

  13. Raga, não mude nada, gostei muito. Achei que algumas alterações ao texto original da música emprestaram um pouco mais de veracidade à história. Identifiquei de cara a semelhança, mas, não fosse seu comentário sobre o concurso, teria achado que era apenas uma releitura ou uma referência. Acho que fica mais legal assim, mais sutil e inependente!
    Muito boa, mesmo!!
    Precisamos marcar outro almoço daqueles… Paraguayo e eu preparamos um strogonoff pra ti, e algo que a esposinha esteja com desejo, especialmente!!
    Nos dê um alô e combinamos!!
    Abraços e beijos!!

  14. Acompanho a última. Sugestão: nunca modifique textos concluídos.

  15. Lindo, uma pena que não existe vida após a morte. Foi apenas um pretexto para encerrar uma vida que já não estava tão boa. Tivesse a velha sem problemas de saúde, dúvido que agiria da mesma forma.


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