Seja Bem-vindo, Sr. Nogueira

A sala em que o homem aguardava ser chamado, apesar de pequena, era bem aconchegante. As paredes eram pintadas com uma cor leve que ele não conseguia identificar com precisão, e a poltrona na qual estava sentado era mais confortável que muita cama que experimentara por aí. As paredes estavam repletas de quadros com fotografias de pessoas desconhecidas, todas com um belo sorriso no rosto e um olhar de esperança e satisfação. Aguardava já havia uns 10 minutos pelo menos, e segurava em sua mão uma das misteriosas cartas que vinha recebendo em sua casa nas últimas semanas:

“SR. NOGUEIRA,

A SEU SONHO, NOSSO SONHO TEM O PRAZER DE INFORMÁ-LO QUE SEU PERFIL FOI SELECIONADO POR NOSSA EMPRESA PARA RECEBER NOSSOS SERVIÇOS.

SERVIMOS SOMENTE UM SELETO GRUPO DE PESSOAS POR ANO, E TEMOS COMO OBJETIVO REALIZAR SEUS SONHOS A CUSTO PRATICAMENTE ZERO.

VENHA NOS FAZER UMA VISITA.

ANDERSON GIBRALTAR

P.S.: ESSA PROPOSTA É VÁLIDA ATÉ 19 DE MAIO DO CORRENTE ANO.”

E lá estava ele agora, Sr. Nogueira – o homem ria toda vez que via seu nome escrito desse jeito, já que nunca havia sido chamado assim por ninguém -, há dois dias do prazo final, na recepção daquela empresa que jamais ouvira falar antes (nem as buscas pela internet o ajudaram), curiosamente aguardando a explicação de todo aquele mistério.

– Sr. Nogueira – ouviu uma voz chamando enquanto novamente abria um leve sorriso de satisfação – faça o favor. – completou a recepcionista indicando o caminho a ser seguido.

Ele se levantou imediatamente e prosseguiu em passos largos até a sala indicada. Lá se encontrava um homem que aparentava não mais que 40 anos de idade, vestindo um suntuoso terno de grife, gel nos cabelos e gravata de seda. O homem ficou em pé, revelando uma altura imponente e um largo sorriso receptivo.

– Seja bem-vindo, Sr. Nogueira, é um prazer conhecê-lo pessoalmente. – disse o homem levando sua mão ao encontro da dele – Eu me chamo Anderson Gibraltar (Nogueira reconheceu como sendo o nome que constava na carta) e eu sou o fundador/presidente dessa organização, a SEU SONHO, NOSSO SONHO. Nós estamos no mercado há mais de 20 anos realizando os sonhos daquelas pessoas que nós consideramos merecedoras do nosso serviço. Bom – disse o homem interrompendo seu próprio raciocínio -, posso ver em seu rosto que o senhor está repleto de perguntas para fazer, portanto, acho melhor parar de falar e esclarecer suas dúvidas.

– Para ser sincero, devo admitir que estou aqui por mera curiosidade – confessou Nogueira percebendo pela feição de Anderson, que não relatava nenhuma novidade para ele -, pois não entendi exatamente o que vocês podem fazer para me ajudar.

– Sr. Nogueira, em primeiro lugar, o senhor deve entender uma coisa: Nós sabemos tudo a seu respeito. Tudo mesmo. Desde seu time de futebol, cores preferidas, tipos de mulheres, até a aversão que o senhor tem por alguns tipos de tecidos. Não há nada que possa me relatar aqui, que eu já não tenha lido nesse seu profile que me foi entregue – afirmou enquanto abanava uma grossa pasta azul-marinho com as mãos. – Nós da SEU SONHO, NOSSO SONHO sabemos, por exemplo, das cinco pontes de safena que o senhor possui em seu coração, e como essas operações, apesar de parcialmente cobertas pelo seu plano de saúde, deixaram o senhor afogado em dívidas gigantescas.

– Então, vocês também sabem que não tenho um só real para dar-lhes em pagamento, não sabem? Que todo dinheiro que recebo da minha aposentadoria por invalidez, somado ao salário que tiro mensalmente com minha barraquinha de hot-dog clandestina, já estão totalmente comprometidos, certo?

– Sr. Nogueira, sabemos até sobre os 5.000 reais que o senhor recebeu de herança pela morte de sua tia Matilda, e que repousam nostalgicamente escondidos debaixo de seu colchão.

Os olhos do homem arregalaram-se transmitindo todo espanto que sentia naquele momento. Nunca contara nada à ninguém sobre aquele dinheiro, afinal de contas devia não somente alguns empréstimos bancários, como também a amigos e vizinhos. Não era caloteiro, não mesmo, mas precisava de uma segurança para sanar algum possível imprevisto que pudesse surgir. Seu rosto ficou vermelho de raiva no momento em que bradou indignado:

– VOCÊS, POR ACASO, ANDAM ME ESPIONANDO!?!?!?

– Claro, Sr. Nogueira, de que outra forma poderíamos saber se o senhor era realmente merecedor desse benefício que estamos lhe oferecendo agora? – assumiu Anderson sem constrangimento. – Mas o senhor não se preocupe, pois nossa política é de sigilo total, tanto para vocês, quanto para nós. O senhor não relata nossa existência a ninguém, e nós não espalhamos nenhum daqueles pequenos segredos sórdidos que todos nós escondemos dentro de nossos armários, como, por exemplo, cinco mil reais embaixo de um colchão.

– O que vocês querem comigo exatamente? – questionou o homem já um pouco mais calmo.

– Ajudá-lo, nada mais. E, antes que o senhor pergunte, eu digo o porquê. Por que o senhor é um homem bom, essencialmente bom. Apesar de todas as dificuldades e humilhações que passou nessa vida, sempre manteve seu caráter irretocável, uma honestidade inquestionável e uma vontade de viver invejável, mesmo que com sofrimento e dor. E essas são qualidades que nossa empresa admira e busca em um possível candidato.

– Nunca fiz nada além do que precisei para sobreviver. – retrucou Nogueira sentindo-se lisonjeado como nunca antes na vida.

– Sim, mas muitos em seu lugar teriam buscado “facilidades”, se é que você me entende. – Nogueira acenou positivamente com a cabeça, invadido por um inédito orgulho próprio, então viu Anderson prosseguir seu raciocínio – e é exatamente essa força interna, essa resiliência, que o fez merecedor daquilo que estamos prestes a lhe mostrar, se for de sua vontade, claro.

– Não vejo mal em prosseguir com essa história por mais algum tempo. – respondeu um pouco ressabiado.

– Ótimo! Então, peço para que assine esse livro de Presença aqui, e que, depois, siga-me até a sala ao lado.

E foi o que Nogueira fez. A sala era mais ou menos do mesmo tamanho que anterior, mas no centro havia algo que, para ele, assemelhava-se a uma cadeira de dentista. Achou aquilo intrigante, mas caminhou mais alguns passos até que Anderson voltou a falar.

– Essa é a sala da Infoterapia. É aqui que sua vida começará a mudar definitivamente. Assim que deitar aqui, começaremos o seu “tratamento”. Não se preocupe, pois essa terapia é totalmente indolor. Nós da SEU SONHO, NOSSO SONHO descobrimos uma maneira inédita de injetar informações e habilidades nas partes dormentes do cérebro, ou seja, deixamos nossos selecionados mais inteligentes; velozes; eficazes; competitivos. Durante as próximas duas horas e meia, o senhor receberá uma quantidade de informações que levaria décadas de estudo intenso e aplicado para aprender. Matemática; Física; Cotidiano; História; Biologia; Medicina; Entretenimento; Filosofia; Política; Artes Marciais; Ocultismo, e todo outro tipo de informação que possa imaginar, serão inseridos dentro desses locais inexplorados do seu cérebro, fazendo do senhor uma verdadeira máquina. Além disso, descobrimos que, ao despertar essa parte dormente do cérebro, o indivíduo adquire alguns poderes psíquicos interessantes, que variam de acordo com a pessoa, como telecinese; hipnose; telepatia. Mas nunca conseguimos antecipar se ou qual será despertado. Alguma pergunta?

– Na verdade, não entendi direito nada do que você falou até agora, então só consigo pensar em uma pergunta para fazer. Algo que me chamou a atenção e está me remoendo desde que cheguei aqui. Quem são aquelas pessoas nos quadros pendurados na recepção?

– São apenas algumas das pessoas selecionadas por nós, nada mais. Mas e o senhor, está interessado no tratamento?

O homem nem respondeu a pergunta, já deitando imediatamente na “cadeira de dentista” à sua frente. Anderson riu daquela objetividade e prendeu um eletrodo em cada lado da testa, ligando-o a uma enorme máquina que, ao acender, revelou-se no fundo da sala, que, agora, mostrava-se maior do que parecia anteriormente. Anderson ficou em pé, bem à frente de Nogueira, com os dedos indicadores apoiados nos pequenos círculos presos aos lados da testa. Foi quando, subitamente, sentiu um impacto. De fato, não sentia dor, mas havia um certo desconforto, como se formigas marchassem dentro de sua cabeça. Eram as informações chegando. Os olhos retorciam convulsivamente, e a boca mordia o cilindro de borracha que havia sido colocado entre os dentes pouco antes do processo ser iniciado. E durante os próximos 150 minutos, o “escolhido” debateu-se na cadeira de dentista inadvertidamente.

*****************************************************************************************************

Nogueira acordou com a baba escorrendo pelo canto do rosto e um gosto ruim na boca. Quando abriu os olhos percebeu uma nota de R$ 50,00 grudada em seu lábio inferior e uma poça que havia se formado em seu travesseiro. Olhou para os lados e reconheceu o local onde se encontrava. Era seu quarto. Estava em sua casa e, provavelmente, aquela nota que ficara presa em sua boca fazia parte daquele montante que escondia em segredo (nem tão segredo assim agora) embaixo do colchão. Não se lembrava de como havia chegado ali, aliás, a última coisa que recordava fora o momento em que Anderson colocara os dedos indicadores nos eletrodos presos a sua testa. Depois disso, só um enorme vazio, o que era ao menos intrigante, já que o objetivo daquela experiência era encher seu cérebro de informações novas e não privá-lo delas.

Alguns minutos depois, a barriga roncou e, após uma breve inspeção na geladeira de casa, resolveu que faria um pequeno lanche fora. A padaria ficava a poucos metros daonde morava, e ainda por cima tinha preços bem razoáveis, o que fez dela sua primeira opção. Assim que entrou no estabelecimento avistou a bela Maria, uma mulher de 35 anos que aparentava, no máximo, 25. As coxas grossas e suculentas chamavam atenção até dos praticantes do celibato, como o Padre João, e delineavam músculos tonificados que expulsavam qualquer tipo de celulite. O abdômen era perfeito, marcado por pequenos gomos de músculo e invadido por finos pêlos louros e bronzeados, que pareciam fios de ovos brilhantes. Mas eram os olhos azuis que mexiam, de fato, com Nogueira. Tinha paixão por eles, e os dela eram azuis como o mar nos lugares inóspitos ainda não destruídos pela presença do gafanhoto chamado homo sapiens. Adorava encontrá-la pelas ruas do bairro, pois só assim tinha a oportunidade de admirá-la, escondido em algum canto qualquer. Só que dessa vez, podia ver também algo diferente, como se fosse um tipo de raio-x da sua alma, que lhe mostrava o que Maria sentia naquele exato momento. Podia perceber os menores detalhes, como, por exemplo, a hora em que surgiu um pequeno ponto vermelho em sua batata da perna, segundos antes da moça levar a mão até o local e coçá-lo. Era como se tivesse percebido, antes mesmo do que ela, que aquela coceira se manifestaria. Agora, prestando mais atenção, podia observar seu estado de espírito, suas vontades, até seus desejos. Não sabia como explicar isso, apenas pressentia. Aproximou-se da mulher com inédita confiança, e ofereceu-lhe uma bomba de chocolate e um capuccino, o preferido dela, ela diria mais tarde, sem ter idéia de que essa informação, agora, não era nenhuma novidade para ele. Na sua cabeça borbulhavam todos os tipos de assunto, desde política à alta costura. Não havia conversa que ela iniciasse, sobre a qual ele não tivesse absolutamente todas as informações disponíveis a qualquer ser humano. Ele era uma máquina de conhecimento.

A bomba e o capuccino duraram apenas alguns minutos, mas a conversa esticou-se por horas. Maria achava estranho sua atitude, nunca dera muita confiança para estranhos que a abordavam na rua (senão passaria o dia se dedicando a isso, pensava ela, sem falsa modéstia), mas aquele homem pouco atraente, diga-se de passagem, parecia conhecê-la como ninguém em toda sua vida. E aquilo mexia com ela, trazia uma queimação dentro da barriga que em breve se transformaria em um fogo incontrolável, um desejo irreconhecível, que parecia cegá-la impiedosamente, e que a fez convidar-se para ir até a casa dele. Nogueira já começava a entender o que acontecia. A tal de “infoterapia” de alguma forma lhe dava ferramentas que permitiam, através da utilização dessa parte dormente do cérebro, ver o que outros não viam, perceber o que os outros não percebiam e sentir o que os outro não podiam sentir. Sua psique o permitia ler não apenas mentes, mas sentimentos também. Uma sensibilidade extrassensorial que fazia dele alguém muito, mas muito poderoso. Tão poderoso que estava, agora, na cama com aquela deliciosa mulher.

Com o passar dos dias, Nogueira foi percebendo que exercia uma influência poderosa não só sobre aquela cobiçada mulher do bairro, mas praticamente sobre todos com os quais tinha contato. Pelo menos, até o momento, não havia encontrado uma só alma que resistisse a sua conversa, realizando suas vontades e seus desejos. Era tudo muito inusitado. Bastava um mínimo de concentração em um alvo, e Nogueira conseguia entender a pessoa da maneira mais íntima e sublime, surpreendendo-a com comentários e assuntos de seu total interesse, que a deixavam completamente vulnerável as suas vontades e desejos. A Infoterapia era, de fato, muito poderosa, e fizera com que ele praticamente se transformasse em um leitor de pessoas.

Bom, como todos podem imaginar, o poder é algo inebriante e que toma conta de qualquer um, portanto, não levou muito tempo para que Nogueira se dedicasse, quase que exclusivamente, a conquistas baratas e desnecessárias, causando mal-estar e problemas nas vidas de diversos casais que tiveram seu relacionamento abalado ou extinguido em função dele. Não havia como as mulheres resistirem ao seu “charme” por muito tempo. Cedo ou tarde, elas acabavam em sua cama, compelidas por um desejo que elas não conseguiam entender, muito menos seus maridos, bom, pelo menos a maior parte deles. nunca havia tido uma agitada vida sexual, mas, os últimos dias, compensavam os anos de abstinência forçada.

Partiu também atrás do dinheiro fácil, obtendo empréstimos com vizinhos, amigos e até desconhecidos. Depois, as pessoas não entendiam porque emprestavam suas economias para alguém que mal conheciam, mas bastava Nogueira pedir, para que qualquer um cedesse. Torrava tudo em noitadas e mordomias, afinal, quitar o débito não seria problema, apenas “convenceria” o credor a extender o prazo ou, quem sabe, até cancelar a dívida. Largou o trabalho como ambulante e até desistiu de ir buscar o dinheiro de sua aposentadoria, não tinha conta em banco e a fila era sempre muito grande. Transformou-se visivelmente. As pessoas mais próximas, apesar de não resistir a um pedido seu, não apreciavam mais sua companhia, e isso causava tremenda confusão em suas cabeças. “Por que satisfaziam suas vontades quando não gostavam desse novo ELE?” era o que se perguntavam todos, completamente sem resposta.

E assim passaram-se dias, semanas e meses, até que certa tarde, enquanto degustava um sanduíche “gentilmente oferecido” pelo dono da padaria local, um conhecido pão-duro de mão cheia, Nogueira teve o lanche interrompido por uma mensagem recebida em seu novíssimo celular:

A SEU SONHO, NOSSO SONHO PEDE SEU COMPARECIMENTO EM NOSSA SEDE COM URGÊNCIA!

ANDERSON GIBRALTAR”

A mensagem em seu celular chamou a atenção do homem por duas razões: A primeira, foi o fato dele ter adquirido aquele celular no dia anterior, e não ter cedido ainda esse número à ninguém (muitos, apesar de realizar seus pedidos, não o procuravam mais com a mesma frequência), e a segunda, era a palavra “URGÊNCIA” contida no corpo da mensagem. O que poderia ser tão urgente? Será que aquela terapia tinha efeitos colaterais?, então lembrou-se que nunca havia pago nenhuma quantia pelo tratamento, talvez fosse isso, mas dependendo do valor, nem pagaria, afinal de contas, não tinha assinado contrato nenhum com ninguém. Decidiu que permanecer com a dúvida seria pior do que descobrir qual seria aquela “URGÊNCIA” e resolveu que compareceria naquele endereço no outro dia logo cedo.

E foi exatamente o que fez. No outro dia, bem cedinho, lá estava ele sentado na recepção da empresa em que estivera meses atrás pela primeira vez. A sala continuava a mesma, exceto pelos quadros com as fotos dos clientes que não mais se exibiam pendurados por toda parede. Dessa vez, teve que aguardar pouco mais de uma hora até ser chamado, o que o deixou irritado, não só por se considerar um homem, atualmente, poderoso e importante, mas, principalmente, pelo fato de haver tentado convencer a recepcionista a apressar sua entrada sem sucesso algum. Talvez fosse isso. Talvez tivesse sido chamado até ali para recarregar seu cérebro com uma nova sessão de Infoterapia e poder continuar satisfeito com a empresa pela qual fora selecionado. É, provavelmente era isso. Só uma recarga cerebral, nada mais.

Alguns minutos depois, viu a figura de Anderson aparecer por entre a porta da sala adjacente. O homem fitou-o por alguns segundos e depois pediu para que o seguisse até o outro ambiente. Ao entrar, Nogueira percebeu que todos os quadros que antes ficavam pendurados na recepção, agora estavam pendurados naquela sala. Na verdade, havia muito mais quadros aqui do que caberia na sala anterior. Eram milhares. Homens; Mulheres; Nem Tão Homens e Nem Tão Mulheres; Idosos; Adolescentes; Crianças até; todos misturados numa orgia de retratos de fazer inveja à carteira de clientes de várias empresas. Todos pendurados na sala. Aliás, aquela sala era uma novidade para ele, era gigante e circular e bem menos fresca que a anterior. Com certeza, caso ali houvesse entrada para ar-condicionado, este estaria com algum defeito. Reparou que Anderson o encarava com uma cara bem menos convidativa do que da última vez. As mãos apoiadas no queixo eram sustentadas pelos cotovelos firmes na mesa retangular, que continha apenas uma folha de papel em sua superfície, nada de computador, telefone, porta-retratos, pastas de clientes, apenas aquela folha de papel. Nogueira ficou um pouco desconfortável, mas permaneceu quieto até que Anderson começasse a falar:

– Sr. Nogueira, passaram-se seis meses desde sua sessão de Infoterapia e chegou a hora de discutirmos os valores devidos à nossa Companhia.

– Valores? Mas que valores? – respondeu o homem tentando disfarçar uma surpresa.

– Ora, Sr. Nogueira, os valores referentes aos serviços prestados ao senhor. Lembre-se que nossa carta deixava bem claro “REALIZAR SEUS SONHOS A CUSTO PRATICAMENTE ZERO” – enfatizou Anderson franzindo seriamente a testa – mas tenho certeza de que isso não lhe é, de fato, surpresa, tendo em vista que consta do seu contrato conosco. – completou dando dois tapinhas com a mão direita no papel que repousava na mesa entre os dois.

Nessa hora, Nogueira arregalou os olhos tentando entender sobre o que aquele homem se referia. Nunca havia assinado contrato nenhum com eles. Havia sido levado direto da recepção para sala (se sua memória não estivesse pregando alguma peça), de lá para uma pequena sala onde encontrara o homem à sua frente e, de lá, caminhou direto para o início da Infoterapia. Não, realmente não havia assinado nenhum contrato com eles. Aliás, a única coisa que lembrava ter assinado havia sido aquele tal Livro de Presença… a não ser que aquilo não fosse apenas um livro de presença, mas sim algo que o ligasse legalmente àquela estranha empresa. Só então viu o sorriso na boca de Anderson abrir feito guarda-chuva, podia sentí-lo lendo suas entranhas, assim como fazia diariamente com os outros. Sentiu-se invadido, usurpado com aquela atitude, e entendeu o porquê das pessoas não o procurarem mais. Era como uma mulher tomando banho, ao perceber os olhos de um voyeur fitando-a em um desejo repulsivo. Tinha acabado de juntar as peças do quebra-cabeça, e sentia que Anderson sabia disso. Havia sido enganado pelo homem parado na sua frente.

– Qual o preço? – perguntou resignado – Imagino que um poder assim não seja barato – completou.

– Não, realmente não é, mas para alguém que o recebeu sem gastar absolutamente nada, o custo será praticamente zero, como prometido. Queremos 10% de tudo que o senhor conquistou em razão da Infoterapia.

– Mas… mas eu não consegui emprego nenhum, estou sem trabalhar há meses, não recebo valor algum… nem o da minha aposentadoria recebo mais. Vivi de favores todos esses meses. Percebi que dinheiro é um acessório desnecessário quando se tem o poder de conseguir tudo o que se quer dos outros. Eu não tenho dinheiro algum.

– Só os cinco mil embaixo do colchão – corrigiu Anderson a tempo-, mas isso é mixaria perto do que o senhor nos deve. Monitoramos o senhor durante todos esses meses, entre almoços de graça, hospedagem, transporte, empréstimos pessoais, o senhor nos deve aproximadamente essa quantia – afirmou o homem enquanto mostrava ao sujeito um guardanapo com o números escrito à caneta. O valor era altíssimo e levaria tempo para ser levantado por ele, mesmo com a ajuda dos poderes atuais. Então Anderson continuou – Isso sem contar, claro, as mulheres. Bem, considerando que o senhor não comia ninguém a um bom tempo, e levando em conta todas as mulheres que o senhor usou e abusou nesses últimos meses, tomando por base o preço médio de uma acompanhante intermediária, adicionando um bônus pelas orgias experimentadas, posso calcular esse como sendo o valor final do seu débito. – concluiu mostrando novamente o guardanapo, agora ainda mais rabiscado por uma estranha conta rasurada à caneta. Nogueira quase infartou. Sentiu caminhões basculantes trafegando por suas pontes de safena, comprimindo o coração numa dor alarmante. Não tinha como pagar aquilo. Na verdade, poucos teriam condições de quitar uma quantia tão exorbitante. Havia sido enganado, e, agora, não via saída alguma para seu dilema.

– Pela sua reação, vejo que não está pronto para honrar seus compromissos para conosco. Entretanto, há outra possibilidade, para sua sorte.

– Qual possibilidade é essa? – Nogueira inquiriu entusiasmado.

– Consta no seu contrato. – respondeu o diretor, empurrando o papel na mesa em direção ao seu cliente. – Cláusula IX.

O sujeito, esperançoso, nem leu as cláusulas anteriores e foi direto no texto da citada Cláusula IX que regrava: “Em caso de inadimplência da quantia acordada acima, fica o CONTRATANTE sujeito a quaisquer determinações impostas pela CONTRATADA, sejam elas quais forem, de qualquer razão, ordem ou circunstância, sem direito a nenhuma contestação e/ou questionamento daquilo que for requerido, estando obrigado ao cumprimento total e intransferível da obrigação que lhe for imposta”, ou seja, ele estava nas mãos daquele vagabundo que agora o observava com uma altivez irritante.

– Esses termos não seriam validados em nenhum tribunal. Nenhum juiz acolheria essas condições leoninas. Isso é um ultraje!

– Calma, Sr. Nogueira. O senhor nem sabe o que nós queremos, ainda.

– Já imagino que boa coisa não seja. Fale logo, então, seu desgraçado! O que é que eu tenho de tão importante que você possa querer em troca da dívida?

– Nada demais, apenas sua alma.

– Como assim minha alma? – indagou o sujeito sem entender direito o significado daquilo.

– Ora, Sr. Nogueira, sua alma, aquilo que o mantém vivo, sua essência, sua continuidade, enfim, sua alma – completou sem muita paciência.

– E quem é você para querer minha alma? Lúcifer? Satanás? O Coisa-ruim?

– Não, mas estou pleiteando o cargo, talvez daqui uns 500, 600 anos, se conseguir encaminhar bastante almas como a sua lá para baixo.

– Eu.. não… est…tou… te… enten…dendo – falou o homem sentindo uma dificuldade de respirar e uma fraqueza nas pernas que o deixou genuflexo.

– Tsc… Tsc… Tsc… Chega a dar até dó de pessoas iguais a você, mas como gostei do senhor, Sr. Nogueira, vou deixá-lo um pouco mais a par da dura realidade. No inferno, caro amigo, também há competição, também há metas a cumprir. Somos milhares de candidatos pleiteando o Cargo Supremo, dado àquele que vocês gostam de chamar de lúcifer, diabo, satanás, etc. Mas o mal tem prazo de validade também, assim como um jogador de futebol ou um escritor ou qualquer outro profissional, a maldade atinge seu ápice e depois de um tempo rola ladeira abaixo. Ninguém consegue ser mal por toda existência. Nosso atual Mestre Supremo, ou Lúcifer como vocês gostam de dizer, já atingiu seu auge há um bom tempo, e seu espaço está sendo tomado por milhares de formiguinhas como eu, mas só há lugar para um Mestre Supremo, e como a competição é muito acirrada (vocês não fazem idéia das coisas das quais alguns são capazes lá embaixo) eu pensei “O que fazer para conseguir a atenção DAQUELE que nomeará o sucessor?”, e cheguei a conclusão que havia uma única coisa que poderia ser feita de diferente: Trazer para o inferno almas boas. “Mas Lêniter (esse é meu verdadeiro nome) como fazer para levar almas boas para o inferno?”, fácil, respondo eu, basta fazê-las assinar um contrato vendendo sua alma, e depois fazê-las pecar, sem remorso. Simples.

Nesse momento, Nogueira sentia o peito pulsando em um velocidade frenética, o coração acelerado deixava a vista embaçada, e agora Nogueira caía deitado de lado no chão da sala, ainda lutando em busca de ar, como um asmático diante de um ataque de asma mais sério, sem a presença de sua bombinha. Os olhos de Lêniter eram impiedosos e sua boca, mais ainda:

– É o seu caso, meu caro. Um homem que a vida inteira foi honesto e respeitador, que trabalhou nos mais sórdidos subempregos existentes, que sempre apregoou a justiça, mesmo sendo injustiçado pela sociedade e seus governantes, que sofreu problemas de saúde e teve que se endividar para quitar parte do débito que deveria ter sido bancado pelo Estado, a quem prestou conta por toda a vida. Um homem que, apesar de todas as mazelas vividas, sempre preservou seu caráter e sua índole, agora transformado em um porco egocêntrico no momento em que sentiu o gostinho do poder. Você, meu caro Nogueira, poderia muito bem ter usado sua nova condição para ajudar pessoas mais necessitadas, como sempre fez durante sua vida, mas ao invés disso, destruiu casamentos e enganou amigos, vizinhos e parentes. Afastou de si todos aqueles que se orgulhavam de tê-lo conhecido, transformando-se numa pessoa mesquinha, fraca, má. E onde você acha que acaba esse tipo de pessoa? Você poderia ter sido bom, e, caso tivesse sido, hoje nada seria cobrado de você, Cláusula X do seu contrato, mas você infringiu as regras da sociedade em benefício próprio, e agora o preço que lhe imponho é esse: Sua Alma!

Os olhos do homem combalido no chão viravam para cima deixando o globo ocular com uma cor totalmente branca. Da boca saía uma baba amarela fétida, que se assemelhava ao pús produzido pelo corpo humano. A acidez da baba corroía seus lábios e algumas partes do braço em que havia respingado. Era o fim se aproximando. Rapidamente. Lêniter, impassível, continuou:

– Não há pessoas boas no mundo, o que há são circunstâncias que favorecem o aparecimento de bondade nos indivíduos. Seja por medo das consequências; por temer a punição divina; por tranquilidade financeira; ou por conformidade com a falta de perspectiva de vida; algumas pessoas se tornam superficialmente boas, mas basta um pequeno empurrãozinho para que essa máscara caia e o sujeito mostre sua verdadeira essência. Só é possível conhecer alguém de verdade, quando esse alguém tem poder em suas mãos, como seu caso, por exemplo. A diferença entre o remédio e o veneno é a dose aplicada, no seu caso, eu apenas caprichei na quantidade.

O homem mal conseguia manter-se lúcido com a falta de ar nos pulmões. Tentava resistir o máximo possível, mas seu destino já estava traçado. Olhou para os quadros afixados na parede e viu o cimento derreter com o fogo que se formava ao seu redor. A pintura da parede derretia e escorria em direção ao chão, como o mel produzido em uma colméia. O calor se tornava cada vez mais insuportável, e as molduras dos quadros desapareciam em poucos segundos. Só então, o rapaz sofreu o golpe de misericórdia. Todas aquelas pessoas nos quadros, na verdade estavam lá, de corpo presente, acorrentadas, pregadas e algemadas em longas cruzes de madeira e fogo ardente, queimando ali por toda eternidade. Formavam um círculo de sofrimento e pavor, apesar de já parecerem indiferentes a dor. E no meio de todas aquelas cruzes incandescentes, havia uma vazia, imponente, ornamentada apenas por uma placa que dizia: Seja Bem-vindo, Sr. Nogueira. E foi nesse momento, ao entender que passaria a eternidade ardendo naquelas chamas viscerais, que Fausto deu seu último e condenado suspiro.

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7 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Muito verdadeiro, o poder geralmente é usado para fins egoistas.
    Abs
    aimone

  2. Muito verdadeiro..o poder é sempre mal usado…o conto é otimo.mais uma vez sua imaginação viajou muuuitoo alto…gostei muito!!parabens..

  3. ótimo conto, as pessoas usam o poder para satisfazer somente o desejo da sua carne e se esquessem que um dia darão conta da sua alma… Maravilhoso raciocinio parabéns!!!!

  4. Parti sozinho, minha mente estava vazia
    precisava de tempo para pensar
    Para tirar da minha mente, as memórias

    o que foi que eu vi?
    poderia acreditar que
    aquilo que vi esta noite
    era real e não fantasia?

    O que, exatamente, eu vi
    nos meus próprios sonhos?
    Seriam eles o reflexo
    de minha mente distorcida
    olhando para mim?

    Pois em meus sonhos está sempre
    o rosto maligno que torce minha mente
    e me leva ao desespero

    A noite estava negra,
    não fazia sentido reprimir
    pois eu simplesmente tinha de ver
    havia alguém me observando?
    Na neblina figuras escuras
    Se mexiam e se contorciam
    seria tudo isso real?
    ou simplesmente algum tipo de inferno?

    666 o número da besta
    inferno e fogo nasceram para serem soltos

    Tochas ardiam e
    Cânticos sagrados eram pronunciados
    enquanto eles começam a gritar
    com as mãos erguidas para o céu
    Noite adentro,
    as fogueiras queimavam luminosas
    o ritual começou,
    é feito o trabalho de Satã

    666 o número da besta
    há sacrificio esta noite

    Isto não pode continuar
    preciso informar a lei
    poderia ainda ser real ou apenas
    algum sonho louco?
    mas me sinto atraído pelas
    hordas que cantam
    parece mesmerizar,
    nao consigo evitar seus olhos

    666 o número da besta
    666 o único para mim e para você

    Estou voltando, eu vou retornar
    E possuirei seu corpo
    e farei você queimar
    Eu tenho o fogo, eu tenho força
    Eu tenho o poder de fazer
    meu mal tomar este rumo

  5. fala ai ragas… muito bom… realmente a vida é assim… as pessoas se preocupam muito com dinheiro e poder e pouco nas relações humanas…
    deve ser por isso q estão erguendo uma cruz, com a camisa do cúrintia pendurada, do lado do sr. nogueira pra vc… hehehehe…
    PARABÉNS!!!!!

  6. Cumpadre,

    Excelente, como sempre. Parabéns.
    Beijocas

  7. Até onde vai sua imaginação, hein?!
    Essa história dava um filme…

    Muito bom!!

    Beijocona


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