O Passo do Elefantinho

Os quase duzentos quilos de Vanusa eram um nítido incômodo em sua vida, mas nada que pudesse ser comparado às gozações a que era submetida. As pessoas pareciam não perder uma oportunidade que fosse para tecer comentários jocosos e humilhantes em troca de algum par de gargalhadas maldosas. Era o conhecido “perde-se o amigo, mas jamais a piada”.

Amigos, quem dera os tivesse. Fato era que o temor de achincalhamentos a fazia pouco aberta a novas amizades. Família, não tinha. Apenas um punhado de primos que fariam a ela mais mal do que a maior parte dos estranhos. Talvez a solidão fosse seu destino; e a comida, sua melhor amiga.

Após anos de procura e incontáveis “nãos” muito mal justificados, Vanusa conseguiu um emprego de recepcionista, e, por mais incrível que pudesse parecer, numa clínica de emagrecimento. Talvez ela servisse como psicologia reversa para as clientes, daquelas do tipo: “tome uma atitude ou fique assim”, mas o que importava era o salário no final do mês.

Como os carros, ao menos os populares, não eram apropriados para uma pessoa com seu grau de obesidade, Vanusa pegava, todos os dias, um ônibus até a clínica. E foi justamente isso que acabaria por transformar sua vida.

Cidade pequena pode ser um paraíso para muitos, mas, para alguns poucos, pode se transformar num verdadeiro inferno. Como as pessoas tinham os mesmos hábitos, horários e destinação, era comum encontrar no ônibus as mesmas pessoas indo e voltando do trabalho. Dessa forma, Vanusa encontrava-se, quase todos os dias, com Carlos. O homem, que tinha mais ou menos 40 anos de idade, era um conhecido piadista local e, fica desnecessário falar que viu, na obesidade da mulher, um prato cheio para piadas. Todos os dias assim que ela entrava no ônibus, lá vinha ele com comentários jocosos ou musiquinhas incovenientes do tipo: “Olha o passo do elefantinho…  veja como ele é bonitinho”.

E, assim, os meses se passaram, sempre com as piadas acompanhadas por uma boa dose de risadas e olhares maldosos. Mas, a vida é inexoravelmente surpreendente, e, um certo dia, a bebida e o sono de um motorista irresponsável colocaram o destino de todos os passageiros nas mãos de Vanusa. Após dormir ao volante e perder o controle do ônibus em uma curva, o motorista acordou assustado freando o coletivo desesperadamente. A atitude, apesar de evitar a queda do ônibus ribanceira abaixo, foi insuficiente para impedir que a parte da frente ficasse flutuando sobre o pequeno abismo. O motorista, então, percebeu que os passageiros deveriam se direcionar para parte de trás, a fim de evitar a queda mortal. As pessoas começaram a caminhar para trás, enquanto as portas eram abertas pelo motorista. Assim que Carlos se levantou, deparou-se com Vanusa no degrau da porta com um sorriso no rosto. Quando os olhares se tocaram, a obesa mulher abanou positivamente a cabeça e cantou: “Olha o passo do elefantinho…”, saindo imediatamente de dentro do ônibus. As outras pessoas não tiveram nem chance. Com sua saída, a traseira empinou e o coletivo capotou ladeira abaixo ao ritmo frenético de gritos desesperados. Quando, finalmente, o barulho cessou, dirigiu-se à beira do abismo olhando para baixo. A visão daquilo que sobrara, apesar de terrível, a fez sentir-se leve como nunca.

Perigos da Natureza (miniconto)

– Não vá muito longe que essa floresta é perigosa, hein! – ordenou a mãe ao ver o filho se distanciar.

– Só vou até o riacho brincar um pouco. – respondeu o filho.

A mãe preparava o almoço dos dois quando ouviu a voz do filho chamando por ela. Sentiu aquele calafrio na espinha, o mesmo que sentia todas as vezes em que algo ruim estava para acontecer, e partiu em direção ao filho que se encontrava sentado perto das pedras que margiavam o riacho, observando algo do outro lado.

– Mãe, olha só que coisa mais linda aquele filhote. Que animal é aquele?

– Filho, não chega perto dele!! Esses animais são extremamente perigosos!! – bradou a mãe ainda correndo em sua direção.

– Imagina, mamãe. Olha só o tamanhozinho dele. Nem cresceu o pêlo ainda. Coitado, deve estar morrendo frio. Quem sabe podemos ajudá-lo? – disse o filho atravessando o riacho raso e indo em encontro ao outro.

A mãe apenas ouviu o estrondo ecoando por entre os galhos das árvores, mas já sabia  que ele significava o pior. Quando finalmente chegou ao riacho, viu o filho boiando no meio da água, envolto por uma enorme poça de sangue. Invadiu o riacho correndo e gritando “Meu filho! Você matou meu filho!! Por que?? Por qu…” Um segundo estrondo, similar ao primeiro, calou em definitivo o choro da mãe que caíra ao lado de seu pequeno filhote. Da ponta do rifle arcaico saía a fumaça que indicava o autor daqueles disparos fatais: um garoto de 13 anos.

O pai do menino também ouvira os disparos e agora chegava ao local saindo do meio da mata. Ao ver os dois ursos caídos, fitou o filho inundado em orgulho e acenando positivamente a cabeça:

– Esse é meu garoto!! Deixa o pessoal da cidade ficar sabendo disso!!

– Pai, você precisava ver – tagarelou o garoto – eu estava aqui desse lado e o urso filhote parou e começou a me encarar, daí ele veio pra cima de mim, e mostrou os dentes e as garras, vinha pra me matar com certeza, aí eu atirei nele e aí o outro maior chegou e tentou me pegar também, aí…

Então pai e filho saíram abraçados enquanto o garoto incrementava com orgulho a história que contava, afastando-se de outra família que mantinha um abraço bem mais mórbido nas gélidas águas correntes do riacho, sem nunca imaginarem a futilidade do motivo pelo qual haviam morrido.

Quem Matou John Kennedy…da Silva?

Olá a todos! Como vão? Para aqueles que não me conhecem meu nome é John…kennedy…e eu sou esse corpo ensanguentado estirado no chão. O motivo para que eu esteja nessa situação? Eu contarei mais tarde. Preciso me concentrar agora. Minha cabeça dói muito. Muito mesmo. Nunca pensei que ferimento de bala ardesse. Mas arde. Mais que merthiolate. Olha pra mim aqui avoado de novo. Onde eu estava mesmo? Ah, sim! Minha atual situação. Bom, para entender o que aconteceu comigo acho melhor eu me apresentar primeiro.

Meu nome é John kennedy da Silva. Ele é uma homenagem óbvia ao famoso ex-presidente dos Estados Unidos na década de 60: JFK. O fato mais marcante em relação à passagem de Kennedy pela Casa Branca foi seu assassinato ocorrido no Texas, em 1963. O mais impressionante é que, até hoje, não se sabe quem, de fato, o matou. Fala-se em diversas conspirações, envolvendo desde terroristas até o próprio governo americano. Chegaram a prender, inclusive, um bode expiatório que, convenientemente, foi assassinado logo depois de sua prisão. Bom, mas deixa isso pra lá. É passado. O que interessa é que essa tragédia comoveu não apenas os americanos, mas milhares de pessoas por todo mundo, e meu pai foi uma delas. Eu nasci em 23 de novembro de 1963, um dia depois do assassinato. Foi quando meu nome, que já tinha sido escolhido, foi trocado para JK da Silva. Meu pai dizia que eu teria o mesmo sucesso que ele. Coitado. Se soubesse que a única semelhança entre nós seria o tiro levado na cabeça, talvez me desse outro nome. Se bem que Wellington era o nome preferido de minha mãe. Tava ferrado de qualquer jeito.

Bem que eu podia ter tido uma vida parecida com a de John Kennedy. Dinheiro. Fama. Inteligência. Mulheres. Ou alguém acha aqui que eu tive a competência ou a sorte de traçar uma Marilyn Monroe? Acho que só de vê-la eu já daria um tiro na cabeça. Que mulher. Por falar em tiro e em cabeça, voltemos ao meu caso. Peço desculpas. Está difícil controlar meus pensamentos. Sinto minha força se esvaindo cada vez mais. Bom, a verdade é que JFK e eu não temos nada em comum além do que já foi citado. O cara era carismático demais, entrava em um salão e todos paravam para escutá-lo e admirá-lo, já eu fiz mais inimigos que alguém pode querer em uma vida. Quando eu entrava em um lugar, todos paravam também, só que para me xingar ou me bater. Vida de pobre é difícil, quando esse não tem caráter então, fica insuportável.

“Talvez por isso que você esteja aí quase se afogando em seu próprio sangue”, vocês devem estar pensando. E podem estar certos de que é exatamente isso. Eu sempre busquei, inconscientemente, um final trágico para mim eu acho. Só não imaginei que seria dessa forma. Quantas vezes não me imaginei chegando em casa e recebendo de minha “adorável” esposa uma xícara de café banhada em barbitúrico. Vendo seu sorriso no rosto com uma visão embaçada, enquanto cambaleava para o repouso final. Algumas mulheres não perdoam traição. Vocês nem sabem quantos cafés o Barnabé, nosso cachorro, tomou quando era vivo. Tantos que acabou morrendo. Coitado. Insônia crônica. Estivesse vivo hoje, com certeza estaria me fazendo companhia nesse momento, enquanto, claro, lambesse todo o sangue espalhado.

O Matos, meu sócio, então. Sempre esperei dele algo…bom, na verdade, dele sempre esperei algo meio que parecido, meio traiçoeiro, me atacando por trás com uma paulada na cabeça. O motivo seria mais que óbvio, além de eu roubá-lo constantemente, minha esposa, apesar de intragável, tinha uma bunda…Porra, posso falar com tranquilidade…uma bunda que nem a Marilyn Monroe tinha! É Sr. Kennedy, nessa particularidade aqui, seu genérico brasileiro deu um banho em você. Olha, a bunda era tão boa, mas tão boa, que eu to aqui deitado no chão com um tiro no cucuruto, e tô gastando meus últimos respiros pensando nela. É, se meu sócio me apagasse seria por causa daquele belo par de almofadas.

Outro que eu sei que adoraria me apagar era meu filho. Isso mesmo, meu filho. Pra vocês verem só como minha vida não era a moleza da minha versão americana. Claro que eu tenho minha parcela de culpa, afinal não é todo mundo que come a própria nora. Mas chegar ao ponto de jurar de morte o próprio pai por causa disso? Aí, acho que é exagerar, vocês não concordam? Porra, mulher tem várias! Pai é só um! Além disso, vocês não conheceram o pedaço de mau caminho que era a Darlene, Deus a tenha. Aquela menina tinha mais fogo no rabo que o diabo no inferno. Jesus. Cheguei até a ter um taquicardia em um de nossos encontros. Devia ter morrido. Morrer com o rosto enfiado em um par de seios seria bem mais prazeroso do que…GASP!…do que ficar aqui com esse sangue preso na língua. Já tentei me virar, várias vezes, mas meu corpo não me obedece. Acho que é o fim se aproximando.

Agora chega de falar…estou cansado…com sono…muito sono…sinto que chegou minha hora…droga! Cadê a Cida? Justo hoje a empregada resolve atrasar! Queria ter forças para lhe contar tudo…Que cansaço…a cabeça não dói mais como antes…não acho que isso seja bom…O que foi isso? Um barulho! Será que é a Morte já vindo para ceifar minha alma? Ouço passos…é ela…com certeza é ela…Au! Minha cabeça! Quem que está berrando desse jeito? Ai, minha cabeça de novo. Ué? A Morte não grita. Deve ser outra pessoa então. Cida! Você chegou! Tento gritar para chamar atenção: Cida! Cida! eu penso, mas a boca solta apenas grunhidos sem sentido. Que triste é terminar falando a língua dos porcos! Na mesa!…Olha na mesa!…eu tento alertar, mas não tenho mais forças. Agora sim a Morte chegou. Cida, por que você não fechou a porta, mulher de Deus? Céu ou inferno? Cara ou coroa. Droga! Deu coroa.

A mulher de pele negra e enrugada ainda gritava em desespero pedindo socorro. Os vizinhos começaram a aparecer enchendo a sala de curiosos que encaravam aquele corpo sem vida. Um deles, fã incondicional de C.S.I., pedia aos outros cuidado com a cena do crime. Qualquer mudança poderia influenciar diretamente as investigações policiais. Quem teria feito isso? – ele se perguntou ao levar a mulher transtornada para sentar na mesa da sala. Saiu em busca de uma água com açúcar e quando voltou avistou um pedaço de papel em meio às frutas que decoravam a mesa. Pegou o pedaço de papel e sentou. Certas notícias não deveriam ser recebidas em pé. Já imaginava seu conteúdo. Tomou coragem e abriu o papel:

QUANDO MUITOS O QUEREM MORTO, TALVEZ O MELHOR MESMO SEJA MORRER!

Nada mais.

Caso Resolvido, concluiu o homem.

Tarde Demais

Hélio passava mais um daqueles finais de tarde agradáveis. Um happy hour com seus companheiros procuradores regado à cerveja, futebol e discussões sobre os casos em que atuavam em defesa do estado. A conversa tomou um rumo mais sério quando Hélio expôs aos colegas algumas ameaças anônimas que vinha sofrendo nas últimas semanas. Elas eram assustadoramente reais, especialmente quando a voz aterrorizante relatava, com detalhes, a intimidade da família. Tinha conhecimento das aulas de balé da filha, das aulas de teatro da esposa, da escolinha de futebol frequentada pelo filho. Sabia, inclusive, horários e itinerários das pessoas da sua casa. Sentia-se intimidado por tudo isso, mas não podia demonstrar, afinal de contas, todos sabiam, mais de 90% das ameaças eram apenas palavras jogadas ao vento.

Continuaram a conversa por mais alguns minutos até o momento em que seu celular tocou. Levantou-se para fugir do burburinho que o impedia de entender com clareza o que lhe era falado do outro lado da linha. Os amigos perceberam a súbita mudança de semblante que veio acompanhada pela palidez do rosto sempre bronzeado pelo sol. Com certeza eram más notícias. Tiveram a comprovação disso quando viram Hélio bater em disparada em direção ao carro, providencialmente, estacionado à frente do bar. Enquanto corria puderam ouví-lo cuspir algumas palavras em meio ao desespero – “Meu Deus…minha mulher…” foi o que conseguiram captar.

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O nariz escorria uma gosma líquida e branca que mudava sua tonalidade ao juntar-se ao sangue que caía da boca. Aquele era o terceiro tapa que a mulher levava na cara daquele estranho e assustador homem à sua frente, e seu rosto já revelava marcas profundas o suficiente para levar semanas até desaparecerem por completo. A violência era tamanha que a fazia acreditar em qualquer ameaça que fosse expurgada por aquela fétida boca. A dor já incomodava, e somada ao hálito proveniente daqueles dentes negros e podres, transformava essa experiência em algo que beirava o insuportável.

Estava sentada em uma cadeira de madeira com as mãos amarradas para trás. Os pulsos estavam envoltos por várias voltas de uma linha fina, branca, igual às utilizadas pelas crianças ao empinarem suas pipas, mergulhada por inteiro em cerol – uma mistura de cola com vidro moído que torna a linha extremamente afiada – o que impedia que a mulher forçasse os braços na tentativa de estourar a linha, mas não evitava os pequenos cortes banhados de sangue em seus pulsos.

Alguns minutos se passaram sem que fosse novamente atormentada. O homem de voz grave e imperial e uma força descomunal – ao menos para ela – havia se retirado do quarto em que ela estava amarrada, há alguns minutos e o silêncio do cômodo era quebrado apenas pelo arquejar inadvertido causado pela dor dos ferimentos. Talvez ele tivesse ido embora. Talvez aquilo tudo fosse somente um susto, nada mais. Ainda não entendia o que aquela pessoa queria, sabia apenas que tinha sido obrigada a dar aquele telefonema.

Suas esperanças de que seu torturador tivesse deixado o apartamento esvaiu-se com o ranger produzido pela porta do quarto ao ser aberta. Na cara do malfeitor um sorriso estranho, diferente…e um tanto sádico.

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Depois de fazer algumas conversões proibidas no intuito de fugir do trânsito e ultrapassar alguns cruzamentos protegidos por faróis vermelhos alimentado pela pressa, Hélio decidira parar o carro em um canto qualquer e seguir a pé. Seu destino não era longe, mas alcançá-lo a tempo de evitar o pior tornava a jornada árdua e extenuante. A gravata já com o nó da gola amolecido bailava contra o corpo do procurador seguindo o ritmo imposto pelo vento e pela pressa do homem que já suava compulsivamente pela testa. O tempo agora era seu inimigo, e a pressa, neste exato momento, era a melhor amiga da perfeição.

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A mulher despertou ofegante com o banho de água que acabara de sofrer. Havia desmaiado durante a última sessão de pequenas torturas – ainda não sabia qual era pior, se a tortura física ou a psicológica – o que fizera com que aquele miserável enchesse um balde com água gelada e encharcasse seu corpo com o líquido frígido. O frio que sentia era tamanho que a trêmula mulher, que tinha agora a pele toda enrugada, nem sentia o queimar intenso causado pelos ferimentos assim que estes eram tocados pela água esparramada.

– O QUE VC Q..QU..QUER CO..CO..COMI…MI..GO? – perguntou a mulher batendo os dentes uns contra os outros como uma caveira falante.

– Com você? nada! – respondeu o homem com escárnio – apenas me divertir um pouquinho, enquanto tenho que esperar… – finalizou misteriosamente.

– Es…pe..pe..rar o que..que? P..P..POR FA…FAVOR, AO ME..ME..NOS ME DIGA O QUE ES..TA..TÁ ACONTECE…CENDO! Eu p…preciso sa… – antes mesmo que pudesse terminar o raciocínio a mulher novamente apagou, o que comprovava que para ela, a pior tortura estava sendo mesmo a psicológica, já que, dessa vez, o homem nem a havia tocado ainda.

Ele, então, abriu um novo sorriso, diferente do primeiro, um pouco mais revelador. Aquela era a cara produzida por alguém que acabara de ter, o que julgara ser, uma boa idéia. Sim. Ele tinha tido uma ótima idéia. Para ele, pelo menos. Olhando o corpo desfalecido e desprotegido daquela singela dona-de-casa, pensou em como lhe causara sofrimento desde que chegara àquele local, então nada mais justo que, agora, a fizesse extasiar de prazer.

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Hélio corria, corria, corria. Cada vez mais depressa. “Estou chegando, meu amor” pensava ele. Logo, logo estaria lá. Como podia ter deixado esta situação se desenrolar. Ela não o perdoaria nunca. Mas já estava perto. Muito perto. Só esperava que não fosse tarde demais.

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A mulher que anteriormente havia voltado a si com um banho de água fria, dessa vez recobrava os sentidos com outro banho, só que este diferente e mais repulsivo, recheado de saliva. Sua boca era invadida pela língua grossa e áspera do rapaz, e seu hálito era tão atordoante que, não fosse o nojo que sentia, teria desmaiado novamente. Sentiu um embrulho no estômago e torceu para que vomitasse na boca daquele infeliz, mas o enjôo passou depressa. Só aí percebeu que sua mão direita agora estava presa em outro lugar: dentro das calças dele. Enquanto estava “fora-de-área” o miserável desamarrou sua mão direita – a esquerda permanecia amarrada pela linha com cerol ao pé da cadeira – e a colocou em seu pênis já inflado pela ereção. Tentou tirar a mão, mas foi atingida por um soco forte o suficiente para abrir contagem a qualquer pugilista profissional. Ficou meio inebriada com a agressão facilitando uma nova introdução daquela língua asquerosa em sua boca.

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“arf…arf…es…tou…che…gando…arf…arf…meu…am…or…arf…arf!”

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O homem genuflexo gritava de dor enquanto levava as mãos à boca. o sangue vazava por entre os dedos revelando a gravidade do ferimento. A mulher o encarava com os olhos arregalados, invadida por uma insanidade animal e irracional. Na boca, a língua do agressor arrancada a dentadas. Dessa vez, o sangue que inundava seu rosto não era seu, e sim daquele desgraçado que, agora, chorava feito uma criança perdida da mãe. Levantou-se da cadeira, ainda com a mão esquerda presa o pé, acertando um joelhada no rosto do homem que caiu de costas acusando o golpe. Arrastou a cadeira por alguns metros em direção ao criado-mudo repousado ao lado da cama. O pulso esquerdo foi rasgado ainda mais pela linha cortante, mas el tinha chegado a um ponto em que a dor não era mais empecilho para nada. A tesoura que se encontrava dentro da gaveta aberta cortou a linha com uma facilidade invejável, mas ainda teria um outro trabalhinho.

A mulher caminhou tranquilamente em direção ao ex-torturador, agora não mais que um bebê chorão, e ao vê-lo soluçar em desespero, pensou em como ela resistira ao sofrimento de uma forma mais honrosa. Teve vergonha por ele. Na sua opinião, o pré-requisito básico para alguém se tornar um torturador deveria ser sua resistência pessoal à dor. Pelo visto, não era. Chegou ao lado do homem ajoelhando-se com o corpo dele entre suas côxas. Não hesitou, apenas levantou sua mão direita – a mesma que ele escolhera para satisfazer seus desejos sórdidos – e enterrou a tesoura em seu pescoço.

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Hélio passou como uma locomotiva pela portaria da entrada seguindo imediatamente em direção à escada. Ela era acarpetada e circular o que tornava a subida mais cansativa e mais demorada do que gostaria.  Ao terminar de subir todos os lances, apoiou-se na parede buscando forças para engolir o coração que já quase lhe fugia pela boca. Com as mãos agora em cima dos joelhos, olhou para frente e observou duas crianças em pé, apoiadas em uma pequena mureta de madeira. O barulho de sua chegada fez com que o menino olhasse para trás, vendo o pai ofegante comas mãos nos joelhos, e a camisa ensopada pelo suor. O cabelo também estava esvoaçado o que lhe causava estranheza já que seu pai sempre usara gel.

– Papai, corre! Corre que está acabando! – gritou o garoto alertando Hélio.

Hélio caminhou vagarosamente até a mureta que abrigava o mezanino, e só então percebeu o teatro lá embaixo completamente lotado. No palco, a esposa, abraçada a um homem com uma tesoura de plástico pendurada ao pescoço, agradecia o público que os ovacionava em pé. A luz do teatro acendeu-se com a entrada do resto do elenco, que ,agora junto aos dois protagonistas, também faziam reverências à platéia enlouquecida. Foi quando Hélio observou a esposa lá de baixo encarando fixamente o mezanino do teatro. O homem acenou para esposa – que retribuiu animadamente o gesto – dando graças a DEUS por ter chegado a tempo. Ainda demoraria para ela deixar o camarim, o que dava tempo de pedir aos filhos, além de segredo pelo atraso, um resumo detalhado sobre a peça que acabara de ocorrer. Então, franziu a testa ao lembrar que teria de lhe contar sobre as ameaças que vinha sofrendo. Mas não hoje. Não hoje.

O Padre e a Ninfo

Agostinho vinha caminhando lentamente pela praça central da cidade em que morava. Atrás dele pairava imponente a imagem da Catedral local, construída em meados do século XVIII, e tombada como Patrimônio Cultural do país. Vestia uma batina marrom clara que contrastava com o intenso calor que sufocava a cidade naquela manhã de verão.

Enquanto limpava o suor do rosto com um lenço branco já totalmente encharcado, foi abordado por uma mulher robusta, repleta de curvas que estavam completamente à mostra, agora que seu vestidinho branco grudava na pele, em virtude do suor produzido pelo corpo. Ela agarrou o braço de Agostinho em desespero, pedindo ajuda:

– Padre, por favor, o senhor tem que me ajudar. Eu preciso me confessar urgentemente. Eu sou uma pecadora sem salvação. – Agostinho tentou responder, mas foi suprimido pela agonia da mulher que o puxava pelo braço em direção à igreja. – Padre, ou senhor ouve minha confissão, ou eu vou acabar fazendo uma besteira.

Apesar de aflita, a mulher ficara impressionada com a beleza e a juventude do clérigo que acabara de abordar. Ficou imaginando como podia um rapaz tão bonito e tão novo ter feito o voto de castidade. Recompôs o pensamento ao tropeçar no degrau da escadaria da igreja, e conduziu o sacerdote até o confessionário.

A moça arquejava intensamente enquanto aguardava o padre abrir a portinhola que os separava dentro do confessionário. Levou poucos segundos até que isso acontecesse, e sem pestanejar, começou a desabafar:

– Padre, meu nome é Samara, e eu acho que estou doente. Na verdade eu não acho, eu tenho certeza que estou doente. E eu já não sei mais o que fazer.

O padre parecia aflito sentado no banco de madeira do confessionário. Samara percebeu a aflição, mas acreditou ser em função da provável pouca experiência de que dispunha o jovem religioso. Ela esperou alguns segundos por alguma palavra, mas a demora do sacerdote a fez voltar a vomitar confissões:

– A verdade, padre, é que eu sou louca por sexo! Só penso nisso o dia inteiro. Vou à padaria comprar pão e acabo transando com o padeiro. Vou à feira comprar frutas, e lá termino eu fazendo amor em meio às bananas. Quando passo em frente a uma construção então, bom, é como um obeso em frente a uma doceria.

Agostinho estava com os olhos arregalados ouvindo atentamente as confissões da voluptuosa mulher. Tentou dizer alguma coisa, mas foi novamente interrompido pela avalanche de verdades cuspida por aquela pecadora em busca de redenção.

– Fato é, padre, que, ao vê-lo passando pela rua, tão novo, tão puro, tão apetitoso, resolvi abordá-lo. Imaginei-me tirando sua roupa aqui, dentro dessa igreja, e fui possuída por um tesão incontrolável. É algo que eu não consigo explicar, muito menos conter. Nunca transei com um padre, e isso me excita demais. Esse perigo me deixa queimando no meio das pernas. Me deixa insana!!! O que o senhor acha, padre? Devo lutar contra isso ou render-me a esse desejo?

– Minha filha – finalmente falou Agostinho – às vezes ELE se manifesta através de nossos desejos. Por isso, nem sempre, negá-los seja o caminho certo, assim como, nem sempre, sucumbir a eles seja, necessariamente, pecado.

Agostinho assustou-se quando a cortina que o separava do resto do mundo se abriu, revelando o corpo nú de uma pecadora novamente convicta. Samara parecia ter entendido o recado. Os seios volumosos e naturais captaram primeiro a atenção do rapaz envolto na batina. Era uma mulher de curvas insinuosas, que parecia cuspir um fogo capaz de ressucitar um defunto. Samara perdeu o controle ao perceber que a visão de seu corpo nú, havia causado uma ereção naquele jovem mensageiro de DEUS. Não esperou mais nenhum instante para avançar em cima do rapaz, que retribuía energicamente as carícias que recebia. Samara titubeou por um instante, ao lembrar que não carregava camisinhas na bolsa, mas lembrou-se também em como a igreja católica condenava o uso de preservativo, e ficou com medo de ofender o jovem católico.

Transaram, transaram e retransaram. Depois, transaram mais um pouco. Pararam apenas quando ouviram o eco de algumas vozes ao fundo. Samara, agora satisfeita, vestia orgulhosa seu inapropriado vestido branco, invadida por um sentimento de orgulho, ao ver o padre completamente entorpecido pelo que acabara de lhe acontecer. Foi embora feliz e confiante pelo fato de ter conseguido fazer um padre perder totalmente a cabeça por ela. Ainda estava com tudo. Iria para casa, mas não sem antes, dar aquela passadinha básica em frente à construção na esquina.

Agostinho vestiu a batina – que era um “vestido” bem mais apropriado que o usado por aquela “pecadora” – e seguiu para fora da igreja e rumo à sua casa. Caminhou alguns minutos até chegar à sua residência. Ao abrir a porta, deparou-se com a figura de uma mulher de aproximadamente 50 anos de idade, sentada no sofá com cara de pouquíssimos amigos.

– Muito bonito, hein, “Seu” Agostinho!! Isso são horas de um garoto da sua idade chegar em casa? Aqui não é pensão para sair à noite e voltar depois do nascer do sol!! Pode ir já para o seu quarto!!

Agostinho estava completamente exausto, e, por isso, obedeceu sem esboçar reclamação. Estava caminhando para o quarto quando parou ao ouvir uma última pergunta vindo da mãe:

– Pelo menos essa tal festa à fantasia foi boa?

O garoto abriu um sorriso de satisfação, ao mesmo tempo em que lamentava não ter sido o pai quem tivesse feito essa pergunta:

– Boa, mãe. Muito boa! – finalizou antes de ir dormir.

 

A Mulher do Ufólogo

Dalva e Laerte formavam um casal diferente. Ele sempre fora um solitário ufólogo de fama internacional, mas sem muitas relações inter-pessoais. Já Dalva era o oposto. Uma mulher briosa, simpática, fazedora constante de amizades, e de papo extremamente agradável. Porém, sempre fora uma moça cercada de mistérios.

Havia aparecido na pequena cidade de Jotalhão subitamente. Sem lenço, e sem documento. Uma mão na frente, e outra atrás. Aliás, quando disse anteriormente “sem documento”, referi-me ao sentido literário da expressão. Dalva não tinha registro geral, nem muito menos cadastro de pessoa física. A única coisa que carregava ao chegar à cidade era um enorme corte na cabeça, além de uma evidente amnésia, possível resultado do ferimento. Talvez, em uma cidade grande, o incidente de Dalva e sua ausência de documentos (consequências de um provável roubo), fossem melhor esmiuçados, mas, em Jotalhão, as coisas eram muito mais brandas.

Pouco tempo havia se passado e a cidade já tinha abraçado a nova filha. E nem houve muito tempo para as peçonhentas “carolas” da cidade, injetarem seus venenos com comentários maldosos (pura inveja em virtude da beleza da recém-chegada), pois essa, estranhamente, e para surpresa de todos, apaixonou-se logo por Laerte, o Ufólogo.

Laerte era um homem respeitado no mundo da Ufologia, era referência mundial nos estudos sobre a possibilidade da existência de vida fora da terra, e era chamado para um sem número de palestras por todo país. Porém, na pirâmide social de Jotalhão, pairava um degrau abaixo de Moisés – o profético mendigo local.

Mas os dois se conheceram e se completaram. “O amor é a forma mais democrática da loucura”, diziam alguns inconformados. Fato é que, em menos de 6 meses, Dalva e Laerte estavam matrimoniados. O casamento, inicialmente, foi soberbo. A mulher era regada à bons tratos, e desejada à “maus tratos”. Todavia, o tempo foi passando e Dalva foi deixando, cada dia mais, de ser uma novidade para ele. Isso somado ao aparecimento sem precedentes de um cometa, fez com que a relação do casal esfriasse.

Vinte anos se foram, seguindo essa mesma toada de indiferença, falta de desejo e atenção por parte do Ufólogo, que, dispendia a maior parte do seu tempo concentrado em seus estudos e pesquisas. Às vezes, Dalva dizia ao marido que, ficar olhando a mandioca plantada, não a fazia crescer mais rápido, uma nada sútil metáfora referente ao fato dele passar, noites e mais noites, olhando para o espaço em seu telescópio de última geração, ao invés de prestar atenção na própria esposa.

Certa vez, quando preparava-se para ir ao seu pequeno observatório situado na zona rural de Jotalhão, foi surpreendido com a notícia da companhia de sua esposa. “Já que Maomé não ia à montanha…” concluiu Dalva. Naquela noite, a presença de Dalva foi ignorada, tanto quanto um pote de requeijão repousando na geladeira de alguém intolerante à lacticínios. Ela, então, acabou por perder a paciência, discutindo seriamente com Laerte, e pegando suas coisas ao deixar o observatório. E nunca mais voltou. Dalva sumiu sem deixar vestígio algum. Laerte demorou algumas horas até perceber o desaparecimento da mulher, mas quando notou o que havia acontecido, desesperou-se. Amava-a muito. Apenas não sabia como demonstrar aquele sentimento.

Enquanto isso em algum lugar do Universo…

– Finalmente você concluiu seus trabalhos! – disse um ser bizarro em uma língua indescritível.

– Demorou um pouco mais do que o esperado, houve contratempos…- justificou-se Dalva enquanto arrancava o próprio rosto para revelar toda semelhança física com seu inquisitor.

– Vinte anos humanos não é muito tempo, mas é mais do que suficiente para chegar à uma conclusão. Então, o que você concluiu em sua pesquisa? indagou a criatura.

– Não há perigo algum. Pelo menos por um belo tempo. respondeu Dalva (ou seja lá o que for).

– Você sabe como os humanos podem ser perigosos. Eles parecem gafanhotos em plantações, quando acham um brinquedinho novo. Vejam só o que fizeram com a Terra. Não os queremos tão cedo xeretando em nosso planeta. Você tem certeza de que eles estão longe de descobrir que há vida fora da Terra?

A pergunta deixou Dalva absorta, refletindo sobre todo tempo que passara com Laerte, e como, surpreendentemente, se apaixonara pelo homem a quem devia investigar sobre as descobertas extra-terrenas. Passara a amá-lo tanto que teria lhe contado tudo que quisesse saber sobre o Universo, em troca de um pouco mais de atenção e carinho. Teria traído seu povo por amor. Um amor, afinal, não correspondido. Choraria se seu organismo permitisse. “Dalva” não possuía pálpebras. Engoliu os pensamentos, e friamente respondeu aquilo que toda mulher acredita ser a maior verdade de todas:

– Eles estão longe de desvendar os segredos de uma mulher, quanto mais os mistérios do Universo.

E de volta à Terra, Laerte nem imaginava que, caso tivesse prestado mais atenção em sua esposa, talvez hoje soubesse mais sobre Ufologia do que os humanos saberão em séculos. Ironicamente, ele resolvera abandonar a profissão para se dedicar integralmente à procura da esposa. Justamente agora que ela se encontrava no espaço.

O Lado Esquerdo do Cérebro

David entrou em casa suando de tão nervoso. As pupilas se retraíram com a claridade da pequena sala de reboco, contrastando com a noite que era engolida pelo mau tempo e pela chuva, tornando-a ainda mais obscura. O pai era policial e rapidamente notou o desespero nas feições do filho, indo ao seu socorro. O garoto arquejava conturbadamente enquanto amparava as costas contra a áspera parede da casa.

Visivelmente preocupado, o pai correu até a cozinha buscando um copo d´água com açúcar para o perturbado rapaz. Aflito, perguntou o que havia ocorrido, e o garoto, agora mais ponderado, caminhou até o sofá iniciando o relato dos fatos.

Ele costumava ir até à favela do Dendê visitar uma agradável cocota com quem estava enamorado. A menina era um pequeno esboço divino, segundo os comentários gerais, e David a havia conquistado. Até aí, não existia problema algum, exceto o fato dele viver na favela do Glicério, histórica rival no narcotráfico. Mas David não mantinha contato com nenhum traficante, portanto isso não o afligia muito.

E justamente hoje, ao visitar a casa de sua namorada, tinha sido surpreendido por uma incursão bélica por parte dos traficantes de sua favela, no morro dos Glicérios. A troca de tiros foi inevitável. David precisava voltar para casa e, com o aparente cessar de tiros, quis aproveitar a oportunidade para ir embora, mesmo com os apelos de sua garota para que ficasse. Enquanto descia os degraus da entrada principal, foi abordado por um elemento empunhando um 38. David prontamente afirmou não pertencer ao tráfico, dizendo ser apenas um trabalhador voltando para casa. O elemento começou a rir incessantemente. Claro que sabia que aquele homem frouxa não pertencia ao mundo do crime, mas sabia também que ele morava no mesmo morro em que moravam os invasores, e que ele namorava a mulher mais “pitelzinho” do pedaço. E essas eram justificativas mais-do-que suficientes para matá-lo. David fechou os olhos ao ouvir sua sentença de morte, e preparou-se para o pior. Estranhamente, escutou um barulho de disparo, mas não havi sentido dor alguma.  Abriu os olhos e viu seu executor caído no chão. A cabeça sangrava copiosamente, criando um rio de sangue em torno do homem alvejado. O tiro havia acertado a parte esquerda do cérebro, o que David achou interessante, pois essa era a parte do cérebro na qual tomamos todas as nossas decisões. E aquele garoto havia decidido matá-lo. e isso tinha ocasionado sua morte.

Enquanto ficava paralisado, viu o semblante de um homem caminhando em sua direção. Era Eustáquio – ou Frita-Kibe como era conhecido – um renomado traficante da favela do Dendê. Eram eles que estavam invadindo o morro dos Glicérios, e era ele que salvara sua vida. Frita-Kibe perguntou a David se ele estava bem. Olhou com desprezo para o corpo sangrando no chão e, após cuspí-lo, afirmou que ninguém além dele tinha direito de matar alguma pessoa de sua favela. Deu dois tapas nas costas de David, e pediu que ele fosse embora.

O pai de David ficou perplexo com a história narrada pelo filho. Eustáquio não passava de um traficantezinho de merda, e agora havia salvado a vida de seu filho. Não conseguiu dormir aquela noite. Devia a vida de seu garoto à um bandido, assassino sem remorso algum ou misericórdia. Ou quase sem misericórdia, afinal era exatamente isso que ele havia oferecido ao seu filho. Pensou muito e tomou uma decisão. Iria procurar Eustáquio e agradecê-lo por salvar a vida de David.

No dia seguinte, caminhou até o topo do morro, e lá encontrou o traficante. Apresentou-se como pai de David, e com um aperto de mão agradeceu seu “benfeitor”. Frita-Kibe ficou surpreso e comovido com a atitude daquele senhor, e iniciou um agradável bate-papo com ele. Alguns minutos depois, quando homem se virou para ir embora, perguntou o que ele fazia para ganhar a vida. O pai de David pensou em omitir o fato de ser policial, mas depois daquela prazerosa conversa e com o rapaz sabendo os motivos dele estar ali, decidiu contar a verdade. Eustáquio sorriu com aquele paradoxo, acenando com as mãos para que o homem fosse embora. E assim que o pai de David virou, foi alvejado por um tiro certeiro na cabeça. Bem ali no lado esquerdo do cérebro. Aquele responsável pelas decisões que tomamos.

A Escolha de Viriato

Viriato tinha uma vida comum e ordinária. Casado desde os tempos de faculdade, era um homem que pouco havia aproveitado a vida. Mulheres, só tivera uma – Dalila – a mãe de seu filho. Filho, aliás, motivo central para realização do matrimônio. Sua vida em casa assemelhava-se a um verdadeiro inferno. Dalila era uma mulher possessiva, ciumenta, de humor inconstante, além de péssima dona-de-casa. Não era raro voltar da repartição pública onde trabalhava há mais de 15 anos, e ainda ter que cozinhar seu próprio jantar.

Mas Viriato amava seu filho Sinval. O garoto de nove anos de idade havia puxado o humor e paciência do pai, e em pouquíssimas coisas lembrava a mãe. Sinval e ele dividiam os mesmos gostos e torciam para o mesmo time de futebol, o que tornava as idas aos jogos perfeitas, já que a mãe odiava o esporte. Sim, era o filho e aqueles deliciosos domingos a dois que o faziam aturar o convívio com a víbora.

Certa feita, chegou em casa do trabalho e deparou-se com um delicioso jantar à luz de velas. Um cordeiro regado ao molho de frutas vermelhas como prato principal – que só lhe dava menos água na boca do que ver sua esposa em uma camisola de seda quase que totalmente transparente. Fazia tanto tempo que não a olhava dessa maneira que já tinha se esquecido da formosura de seus traços.

Aquela noite havia sido inolvidável, assim como memorável seriam os próximos meses de seu relacionamento. Refeições nababescas com os mais variados pratos e temperos. Massagens subliminares que pareciam vir das mãos de um anjo. O mau-humor havia desaparecido. Assim como o ciúme também era coisa do passado. A vida nunca havia sido tão prazerosa. Até houve um certo domingo em que Dalila acompanhou ambos ao estádio de futebol revelando-se uma torcedora apaixonada.

O tempo foi passando e, numa tarde de sexta-feira, Viriato resolve surpreender a mulher ao voltar mais cedo do trabalho com um regalo em mãos. Ao chegar em casa, deparou-se com Sinval sentado na escadaria da frente, os olhos marejados de lágrimas. Correu até o filho, abraçando-o forte. Antes mesmo que pudesse perguntar o que havia ocorrido, ouviu inúmeros estrondos vindos de dentro da casa. Ao abrir a porta supreendeu-se com a enorme quantidade de vasos, pratos e copos esmigalhados em uma miríade de cacos espalhados pelo chão. Dalila estava sentada no sofá, soluçando tão intensamente que até o ar parecia tê-la abandonado. Gritava que queria ir embora dali. Viriato, cada vez mais aflito, ajoelhou-se em frente à mulher e passando a mão por entre seus embaraçados cabelos perguntou o motivo para tudo aquilo ali. Quase foi nocauteado pelas palavras da mulher, que confessava sem receio algum o caso que havia mantendo com Adolpho, um amigo que Viriato fizera no bar anos atrás. Seu coração remoía-se a cada declaração de amor dedicada pela esposa ao Amigo.

Transtornado pelo orgulho ferido, Viriato dirigiu-se à cômoda do quarto retirando um revólver 38 da gaveta de baixo. Mil coisas se passavam em sua cabeça enquanto caminhava em direção ao bar da esquina. Adolpho costumava passar suas tardes lá, jogando sinuca com colegas desempregados. As palavras de sua mulher invadiam seus pensamentos vez ou outra, mas sua mente apenas alimentava a idéia de matar o amante de sua esposa.

Entrou no bar já apontando a arma para o amigo, que levou alguns segundos até perceber o que estava acontecendo. Algumas pessoas correram para fora do bar enquanto outras se jogaram no chão do estabelecimento. Adolpho permaneceu em pé, petrificado, encarando o cano da arma com a mesma concentração do homem confrontado pelo seio de uma mulher. Já sabia o motivo daquilo estar acontecendo. Sempre achara Viriato um banana, e isso, somado ao fato de Dalila ser um pedaço de mau caminho, fez com que ele decidisse seduzí-la. Apenas não contava com um contratempo: Dalila havia se apaixonado por ele. Cobrava visitas cada vez mais regulares e tinha acessos épicos de ciúmes sempre que ouvia histórias dele com outras sirigaitas – termo usado por ela. Por isso, havia resolvido encerrar a aventura. E agora, depois de tudo terminado, Viriato resolvera cobrar o preço. Fechou os olhos e esperou pelo pior.

Viriato aproximou-se de Adolpho colocando o cano do revólver em sua têmpora. Sua boca quase tocando o ouvido do rapaz. Os olhos de Adolpho arregalaram-se ao receber as palavras proferidas pelo provável algoz. Com a arma apontada para cabeça do amante, Viriato exigiu que o rapaz retomasse o caso com sua esposa. Sob pena de morte. Sussurava em seu ouvido que Adolpho deveria estar à disposição de Dalila a qualquer momento, ou enfrentar sua ira de corno manso. Surpreso e com as calças molhadas, Adolpho concordou com a mórbida exigência. Viriato colocou o revólver de volta na cintura, deu dois tapinhas na cara do rapaz proferindo a palavra: “Bem-vindo à nossa humilde família”.

Voltou para casa com um sorriso no rosto, e ansioso para contar as novidades para a esposa. Graças a ele, Dalila recuperaria seu amante. A notícia fez com que a mulher ficasse radiante, enchendo-o de beijos. Agradecida, preparou para ele um jantar especial, seu prato favorito: Estrogonofe. Então, vendo a esposa extasiada saindo para fazer compras, Viriato acomodou-se no sofá saboreando uma cerveja gelada. Ao ver a felicidade da mãe, Sinval correu até o pai dando um forte, caloroso e apertado abraço. A mãe não mais os abandonaria. Levaria mais alguns anos até que percebesse o sacrifício do pai e quisesse ver a mãe longe dali. Mas, por enquanto, a paz havia retornado. Entre a sua felicidade e a do filho havia escolhido a segunda. E não estava nem um pouco arrependido.