Crônica de uma Saudade

Pai, sinto muito sua falta. Muito mesmo. Gostaria de ainda tê-lo ao meu lado. Gostaria de poder aprender um pouco mais com você. Quantas vezes você me deu conselhos certos e verdadeiros, que eu deixei o vento levar. Quantas vezes eu te disse não, quando não me custaria nada lhe dizer sim. Quantas vezes me disse sim, quando o mais fácil era ter me dito não.

Fico pensando o que eu mudaria se tivesse chance: meu jeito, minha boa-vontade, meu companheirismo. Sei que me amava, independentemente dos meus defeitos, mas poderia ter tido menos deles. Ou, ao menos, lhe mostrado mais minhas qualidades. Recebê-lo mais vezes com sorriso, e menos vezes com indiferença. Mais vezes com abraços, e menos vezes com acenos. Acredito ter sido um bom filho, mas tenho certeza de que poderia ter sido muito melhor.

Tantas foram as vezes em que deixei de ficar ao seu lado por algo fútil ou sem importância. E hoje, por ironia do destino, trocaria tudo só por mais alguns minutos com você. Preciosos minutos. Minutos de redenção. Inúmeras foram as oportunidades de lhe dizer o que sentia, e nem sempre aproveitei. Hoje, esses poucos minutos bastariam. Queria ter sido mais filho, e menos humano. Você se foi e levou consigo um pedaço do meu coração. Desculpe não dá-lo por inteiro, mas ainda estou cercado por pessoas que me amam, e também precisam do meu amor.

Às vezes me pego, na calada da noite, chorando sua ausência. Outras vezes, rio sem perceber, invadido pela memória de tudo que vivemos juntos. Na maioria das vezes, apenas torço para ter me tornado alguém de quem você possa se orgulhar.

Queria lhe dizer, também, para ficar tranquilo. Aqui embaixo me cerquei de pessoas carinhosas, que sempre me ajudaram a superar obstáculos. Um padrasto companheiro e amigo, um novo “pai” exemplar, uma porção de amigos que juntos formam um conjunto de suas maiores qualidades. Não podia ter superado sua perda sem eles. Além disso, a aproximação que meus irmãos e eu tivemos, facilitou bastante essa passagem para mim. Acredito estarmos muito mais unidos hoje. Pena, também, você não ter tido a oportunidade de ter conhecido sua nora. Definitivamente, uma grande mulher. Ela me fez uma pessoa muito melhor.

Poderia continuar escrevendo por horas, pois estou abarrotado em sentimentos diversos: alegria, tristeza, alívio, receio, principalmente, amor. Mas quero ligar para minha mãe e dizer que a amo. Já faz um tempinho que não digo, e não quero cometer o mesmo erro, afinal a amo tanto quanto sempre o amarei.

Ricardo Ragazzo

Esse texto é uma homenagem à memória de Paulo Roberto Ragazzo, acima de tudo PAI.

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Published in: on abril 10, 2008 at 12:21 pm  Comments (15)  
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Crônica de uma Rotina

 

 

Todos nós temos dias bons e ruins na vida. E quando um desses dias ruins nos martela, insistente e impiedoso, é comum ouvirmos palavras de apoio e de esperança daqueles que gostam de nós, assegurando-nos da noção de que amanhã será um novo dia e nada na vida é perene.

Mas será que “um novo dia” realmente existe? Para mim, às vezes, parece que o que faço é viver e reviver o mesmo dia continuamente. Algumas pequenas mudanças aqui ou ali, é claro, mas a essência fundamentalmente se repete. Tanto que posso relatar tranquilamente o meu dia-a-dia:  Todo dia eu levanto no mesmo horário, abro minha janela para economizar energia ( já se tornou uma nova rotina ), pego o meu aparelho abdominal, ponho o CD sempre na mesma música, e tento em 5 minutos de exercício, livrar-me de todas as cervejas da noite anterior. Tomo meu banho, pego meu carro e sigo a caminho do meu trabalho, sempre acompanhado da mesma pessoa. Poderia seguir através de páginas e páginas sobre as previsibilidades dos meus dias, mas se há algo pior do que viver nosso dia-a-dia, é escutar sobre a rotina dos outros. O que me levou à decisão de poupá-los.

Voltamos, assim, ao cerne da questão: o que seria um novo dia? Para mim, isso não existe. Claro que se encararmos pelo lado sentimental, teremos respostas como “é um dia a mais que você vive”, “é uma benção de Deus”, “é ter a chance de fazer a diferença”. Tudo bem! Agradeço a Deus por cada dia a mim concedido, mas esse não é o ponto em questão. A Rotina é algo presente na vida de todos. É uma prisão sem muros, celas e guardas. É como se fossemos livremente presos. Algumas pessoas podem pensar que não vivem sob seus efeitos, mas ela é inclemente, não poupando nenhum de nós.

Vamos todos os dias aos mesmos lugares, encontramos as mesmas pessoas e fazemos as mesmas brincadeiras. O próprio Planeta vive sob seus efeitos.  Afinal de contas, nosso planeta gira uma vez por ano em torno do Sol, não é verdade? E isso ocorre há milhões de anos. Então pergunto: Existe remédio para amenizar esse “mal”? Acredito que sim.  Mas, isso exige coragem para mudar, para enfrentar o novo. É ter coragem de esperar o inesperado, de perseguir o imprevisível e até lutar de olhos vendados, se preciso for. É ser um “David” enfrentando não apenas um, mas todo e qualquer “GOLIAS” que possa obstruir seu caminho. É saber lidar com o medo. É transformar a adrenalina em audácia. É perseverar em busca do incerto até transformá-lo em realidade.  É viver sem fronteiras ou limites em busca da verdadeira liberdade: A FELICIDADE. Enfim, é fazer tudo aquilo que ainda não tenho coragem de fazer, pois por um outro lado, fugir da Rotina seria abandonar minha segurança, minha tranquilidade. Além disso, não nos esqueçamos que sem a rotina não haveria o amor, apenas a paixão que é uma fase efêmera pré-amor. Talvez virar às costas para a Rotina seja virar as costas para o amor em sua essência. Amar é conviver e o convívio é rotineiro. Talvez a Rotina respeite apenas aqueles que desatracam do seu Porto Seguro rumo ao misterioso e enigmático horizonte. Quem sabe um dia eu tenha a coragem de desatar o nó da segurança e também parta rumo ao inesperado. Ou quem sabe, um dia, eu encontre um amor tão profundo que me faça querer que a Rotina me abrace e me proteja como uma mãe, me alimentando de amor através de seu cordão umbilical.  Por isso eu digo à todos:

COMO EU AMO A ROTINA QUE EU TANTO ODEIO

Published in: on março 10, 2008 at 7:08 pm  Comments (1)  
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