Uma Grande Notícia

A mulher de meia-idade aguardava sentada com o celular preso entre o rosto e o ombro esquerdo, enquanto utilizava as mãos para acariciar os cabelos da filha que começava a despertar de um sono pesado; Assim que alguém atendeu, a mulher levantou-se, dirigindo-se para fora do quarto em que estava, e começou a sussurrar:

– Alô, amor? Tudo bem?… Você tá em casa?… Hã?… ai, que ótimo! Então, aproveita e vem pra cá agora… ela está acordando… O que?… sei… ahã… ainda não pegou o bolo?… Então corre, pois todo mundo da família tá vindo pra cá, e você conhece sua filha, né? Já já ela percebe a festa de aniversário surpresa… Tá! To te esperando, então. Vem logo, hein? Beijo. Eu também. Tchau.

Assim que desligou o telefone, a mulher voltou ao quarto com um leve sorriso que a teria entregado facilmente, caso sua filha não estivesse ainda sonolenta. Sentou-se ao seu lado e reiniciou o cafuné.

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Do outro lado da linha estava o marido, um homem de pouco mais de 55 anos, que aparentava até mais idade em razão da protuberante barriga adquirida com os anos de cervejas e churrascos. Ernesto era seu nome. Visto por todos como um homem calmo e sereno; boa companhia; meio atabalhoado; mas, acima de tudo, tranquilo. Amava a família incondicionalmente, principalmente, Totia, seu grande tesouro. E era para o aniversário-supresa dela que estava atrasado. Tinha que pegar o bolo ainda. Desajeitadamente, correu até a garagem de casa, entrou em seu civic azul e partiu rumo à doceria.

Não gostava de estar atrasado, mas, cronicamente, não conseguia evitar. Isso sempre acontecia com ele. Vivia avoado, dormindo acordado em meio a reuniões contábeis chatas para um homem bem-sucedido como ele. Dinheiro, graças a DEUS, não era problema para ele – não que fosse milionário, longe disso -, mas tinha o suficiente para arcar com todas aquelas futilidades que todos nós desejamos, mas, poucos conseguem ter. Dessa vez, perdera a hora em razão de um longo banho mais do que merecido, mas que estendera-se bem mais do que previra inicialmente. Agora, tinha que pegar o bolo e chegar ao local da festa em menos de 20 minutos. Precisaria correr, mas concluiu que daria tempo.

Alguns minutos depois, chegou a doceria. Antes até do que havia imaginado. Parou o carro em local proibido, pouco se importando com uma eventual multa; afinal, tinha coisas muita mais importantes para se preocupar. A fila era grande, mas a eficiência dos funcionários impressionava. Em menos de um minuto, já estava na boca do caixa sendo atendido por uma bela morena de olhos claros. Entregou a ela seu pedido e aguardou. Infelizmente, para ele, o bolo levou alguns minutos até ser encontrado, fruto de um erro individual, o que o fez perder toda a margem que havia conseguido ao dirigir até ali, acima da velocidade permitida por lei. Agora não teria outra alternativa, socaria o pé no acelerador, novamente.

Entrou no carro apressado, colocando o bolo no banco da frente, e saindo em alta velocidade. Cinco minutos depois, havia perdido a conta de quantos faróis vermelhos havia ultrapassado. Essa festa vai me sair bem cara, concluiu ele. Até que em uma dessas desobediências, não viu um carro que passava pelo cruzamento, quase colidindo em sua lateral, não fosse o agudo de uma buzina que fizera com que ele freasse o veículo com grande reflexo, parando a centímetros da lataria do outro carro. O coração quase pulou pra fora pela boca, e seu pedido de desculpas não acalmou o outro condutor, que o xingava fervorosamente enquanto partia em direção ao seu destino. Ernesto nem retrucou – também nem poderia -, apenas esperou o farol abrir e seguiu para a festa.

Apesar do susto, o homem recompôs-se e voltou a acelerar o automóvel acima da velocidade permitida na avenida em que trafegava. Já estava bem perto, tudo daria certo. Foi quando tomou outro susto ao notar que o bolo, com a freada anterior, caíra do banco do passageiro com a face virada para baixo. Só faltava estar arruinado, pensou aflito. Não quis esperar o próximo farol e abaixou para pegar a caixa. Sentiu, então, uma forte pancada. O estrondo que ouviu foi aterrorizador, de arrepiar a mais brava das almas, e, então, tudo escureceu.

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Célia já tinha uma filha de 17 anos de idade, mas adorava sentar-se no sofá da sala e assistir aos desenhos animados que passavam todas as manhãs. Era como se recuperasse parte de sua infância, ou, até, parte da infância da filha que havia passado tão rápido. Um dia, mamadeira e troca de fraldas, no outro, preocupação com drogas e novas amizades. Se bem que Celina era uma menina bem tranquila e comportada. Adorava praticar esportes e dificilmente saía à noite em baladas que varavam a madrugada. O negócio da filha era acordar cedo e curtir a praia que ficava logo ali do outro lado da rua.

Olhou o relógio e viu que eram pouco mais de 10:30 da manhã de um domingo ensolarado e convidativo. Ouvia as ondas quebrando na areia, misturando-se as vozes dos ambulantes que ofereciam desde biscoitos de polvilho até massagens e carregadores de celular. Gritou o nome da filha, que apareceu logo em seguida, com a cabeça para fora do corredor onde ficavam os quartos.

– Celina, já são 10:30. Você não tem futebol hoje?

– Tenho mãe, mas para falar a verdade, estou um pouco cansada do cinema de ontem. Fui dormir tarde.

– Ah, Celina, perder esse dia maravilhosos para ficar em casa não dá, né? Se eu tivesse a saúde de antes, já estaria lá há muito tempo.

– É mãe, você tem razão. Afinal, um futebolzinho na praia não mata ninguém, né?

Celina foi até o quarto e colocou um pequeno short apropriado para o futebol de areia. A cor verde-marinho chamava bastante a atenção, e caía bem em seu corpo bronzeado. Antes de sair, ajudou a mãe a chegar até a varanda, e desceu os dois andares de escada. Elevador era coisa para velho ou deficiente, pensava ela. Quando estava quase chegando ao calçadão, ouviu a mãe gritar, enquanto acenava com algo na mão. Colocou a mão no rosto para impedir que a claridade incomodasse seus olhos, e só então percebeu que havia esquecido seus óculos escuros em casa. Óculos, aliás, que estavam agora na mão de Célia. Provavelmente os esquecera na varanda ao levar sua mãe até lá, pouco antes de descer. Tomou o caminho de volta em um leve trote.

Célia acompanhava a filha retornar ao apartamento, e, assim como Celina, não conseguiu ver o carro azul se aproximando em alta velocidade. Testemunhou, de camarote, a filha ser arremessada em direção ao parabrisa do carro, ficando apenas com o pé para o lado de fora. Quem estava mais próximo pode observar o corpo do condutor esmagado pelo corpo da garota atropelada. Ambos já sem vida.

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Lincoln caminhava pela ciclovia em direção ao trabalho quando notou um tumulto poucos metros à frente. Assim como todo curioso, sentiu-se compelido a conferir o que havia acontecido por ali, e ao conseguir abrir espaço por entre a multidão, ficou chocado com a visão do acidente. Um corpo mal coberto por um saco de lixo, esmagado dentro de um Civic azul destruído. Essa era a visão. O saco de lixo bailava com a mais leve brisa, e dava a ele e àqueles ao seu lado, parcial visão do corpo, mas o suficiente para perceberem que era o corpo de um homem.

Recuou em direção a uma árvore, buscando apoio para tontura que sentia. Pôde ouvir uma sirene berrando há poucos metros dali. Pelo que comentavam os curiosos, o homem havia atropelado uma menina, que invadira o parabrisa e esmagara seu corpo. Um havia matado o outro. A ambulância já levara a garota e sua mãe para o hospital, mas a menina já partira sem vida. Aquela imagem do homem morto em seu carro o fez sentir-se muito mal, ainda mais quando criava em sua mente imagens da sua versão do acidente. Saiu de perto daquele alvoroço, sentando-se no chão e apoiando suas costas na árvore. E lá permaneceu, abalado, por mais de duas horas. Não conseguia tirar aquela visão da cabeça. Por que tinha que ser tão curioso? Estava em um transe total quando ouviu seu celular tocar; só podia ser seu chefe, pensou logo. Enfiou a mão no bolso da calça para pegá-lo, mas ao tirá-lo de lá, percebeu que não era ele que tocava, e sim um celular “sem dono” caído logo ali ao seu lado. Esperou alguns segundos para ver se alguém se manifestaria, e como isso não aconteceu, atendeu o telefone. Não podia ouvir qualquer telefone tocar, sem que o atendesse. Sempre fora assim.

– Alô?… Quem é?… Alô?… Aqui é o Lincoln… Não sei, minha senhora. Acabei de achar esse celular no chão… Alô? Alô?

A pessoa do outro lado da linha havia desligado; ficou pensativo, imaginando de quem poderia ser aquele telefone abandonado, e só então viu sangue na mão que segurava o aparelho. Olhou com mais atenção e percebeu o visor avermelhado com o líquido viscoso, e os botões do teclado também. Aquele telefone devia ser do homem morto no acidente. A batida, provavelmente, fizera com  que o telefone voasse para fora do carro e parasse somente ali. O coração disparou quando percebeu que aquela mulher ao telefone, possivelmente era sua esposa; e que ainda não sabia nada sobre o que tinha acontecido com o seu marido. Apavorado, pensou em jogar o telefone no chão e ir embora, mas lembrou-se que havia dito seu nome à esposa desavisada, então, resolveu levá-lo até um policial próximo e explicar o que havia acontecido.

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A demora do esposo e a chegada dos familiares fez com que Leila iniciasse a festa mesmo sem bolo e sem a presença de Ernesto. A filha fazia 18 anos de idade, mas seu problema crônico no coração acabara com a chance de realizarem a mega-festa que a garota sempre pedira. Quem sabe no próximo ano, né? – dizia ela. Fazia alguns meses que “viviam” naquele hospital, internados dia e noite à espera de um coração para Totia. O dificuldade era o tipo sanguíneo da filha: O negativo. Isso queria dizer, em resumo, que a garota era doadora universal, mas só podia receber sangue de um outro O negativo; porém, se o problema fosse somente transfusão de sangue, nem seria tão grave, mas ela precisava de um coração apto a ser transplantado, de uma pessoa que fosse do mesmo tipo sanguíneo e que tivesse uma família que autorizasse uma doação de órgãos. Com isso, os meses iam se passando e as chances de Totia ter seu quadro clínico agravado ficando maiores. Por isso, que toda a família comparecia ao hospital para celebrar seu aniversário de 18 anos; afinal, ninguém dizia em voz alta, mas aquela poderia ser sua última festa, e, exatamente por isso, que não entendia o atraso de Ernesto. Já devia ter chegado há horas. Pegou seu celular e ligou para o marido.

– Alô!… Como assim quem é, Ernesto? Onde você está?… peraí! Quem tá falando?… Lincoln? Quem é você? Cadê o meu marido?

Nesse momento o médico de Totia, Dr. Oswaldo, entrou na sala pedindo para falar urgentemente com Leila. A mulher desligou o celular na hora, e caminhou aflita até o homem de branco. Temia por notícias ruins sobre o marido, e acompanhou-o para fora da sala. De dentro do quarto, os convidados e a aniversariante observavam com atenção a conversa entre os dois. Aliviaram-se quando viram Leila abraçar o médico efusivamente, com um largo sorriso no rosto. Voltou correndo até o quarto, mas antes que pudesse falar, Totia apressou-se:

– O que foi, mamãe? Más notícias? – questionou ela, já torcendo para ser contrariada.

– Não, minha querida, é uma grande notícia. Acharam um coração para você. Já estão preparando a mesa de cirurgia. Te passaram à frente da lista, pois seu caso é especial. Minha filha, você vai receber um coração novinho em folha.

As pessoas começaram a se abraçar emocionadas com aquela notícia maravilhosa. Totia receberia seu tão sonhado coração naquele dia ainda. Em meio à choradeira, a garota perguntou:

– De quem é o coração, mamãe?

– Não sei, minha querida, não sei. O Doutor só me disse que é de uma garota que foi atropelada algumas horas atrás. Ele não me disse mais nada.

– Mamãe, eu gostaria que rezassemos um pouco em homenagem a essa menina que perdeu a vida. A desgraça dela é minha sorte, e o mínimo que podemos fazer é orar por sua alma. – Totia completou, surpreendendo a todos.

As pessoas ajoelharam-se em volta da cama onde Totia repousava havia meses. Todos oraram emocionados, seguindo o pedido da garota. Todos, menos a mãe. Precisava contar as boas novas ao marido, e, sinceramente, não lamentava a morte da menina; afinal, sua partida significava uma chance para sua amada filha. Discou o número do telefone e aguardou alguns segundos, até que um homem, que não era seu marido, atendeu o telefone.

– Alô? Eu gostaria de falar com o Ernesto. – afirmou ao perceber a voz estranha.

– Quem fala? – perguntou a voz do outro lado da linha.

– Leila, a esposa dele! Quem é que tá falando, hein? Cadê o meu marido?

– Dona Leila, aqui quem fala é o Sargento Delgado. Tenho um péssima notícia… veja bem, houve um acidente com o seu marido e…

Sala de Espera

Foram longos os minutos enquanto esperava para ser chamado à sala de cirurgia. Acompanhar o nascimento, apesar de parecer lógico, não foi uma decisão fácil. E muito mais difícil seria, caso soubesse da existência daquela maldita Sala de Espera, que nada mais é que um local onde o pai aguarda ser chamado para acompanhar o parto, mas para aquele que lá permanece, assemelha-se mais a um portal tridimensional onde tempo é desproporcional e segundos e séculos têm a mesma duração.

E foi lá, naquela sala de espera, que vi o sofá se transformar em uma máquina do tempo, que me trouxe lembranças do passado e me mostrou as expectativas para o futuro. Afinal, depois desse dia, nada mais seria como antes.

A primeira lembrança foi do meu pai, e em como em meio a toda a alegria vivida durante os nove meses de gestação, faltou-me aquele abraço forte e orgulhoso. Imaginei aquele sorriso inapagável de avô abobalhado ansioso pela chegada do neto. Aí caíram as lágrimas ao visualizar um futuro impossível no qual Paulo e João Gabriel brincavam juntos, avô e neto, meu pai e meu filho. Mas, logo lembrei que, felizmente, há pessoas dispostas a fornecer ao meu filho esse amor físico que meu pai só poderá dar por espírito, e, então, o preto virou cinza. Mas deixo a certeza, Pai, que o João Gabriel sempre ouvirá falar de você.

Depois sorri quando pensei em minha mãe. Sorri por saber que esse amor ele terá oportunidade de receber, incondicionalmente, para sempre. Sorri mais ainda ao imaginá-lo dizendo estar com saudades da Vovó Lygia, e fazendo com ela o que bem entender, assim como o pai fez quando criança. Pensei na minha irmã, no meu irmão e em minha amada sobrinha. Pensei em como estamos reiniciando nossa família, e como temos todas as possibilidades de sermos felizes. Pensei na família da minha esposa, hoje minha família também, e no amor, igualmente incondicional, que eles reservam ao meu filho. Pensei nos amigos, e nos filhos que eles terão, formando também, ao nosso lado, suas famílias.

Enfim, pensei na Renata, minha amada esposa, e no presente que dali a pouco ela me daria. Pensei na inevitabilidade do destino e em como as coisas já estão escritas. Lembrei de cada minuto desses 6 anos juntos, e em como eles virarão 60 um dia. Aí desabei quando vi nosso futuro. Um choro alegre, vindo de um homem feliz e completo, que enxergou nada mais que felicidade.

E, finalmente, quando a enfermeira chamou “acompanhante da Sra. Renata”, a única coisa que veio a minha cabeça foi a resposta: “Para sempre!”

TE AMO JOÃO GABRIEL! VOCÊ É A LUZ NO INÍCIO DO MEU TÚNEL!