E Você? O Que Faria?

O sol a pino transformava o congestionamento em algo muito mais insuportável do que normalmente já seria.  Mesmo com a bela vista da praia ao lado, o calor, somado ao defeito no ar condicionado, fazia com que pai e filho quisessem atingir seu destino o mais rápido possível. A camiseta já servia de toalha de rosto, enxugando o suor incessante produzido pelo corpo. Os vidros abertos não traziam muito conforto, mas evitavam que o carro se transformasse em um forno ambulante.

A temperatura passava dos 35 graus e o rádio, única distração da dupla, já começava a causar algumas divergências, já que o pai insistia em ouvir um samba, enquanto o garoto queria sintonizar seu i-pod para ouvir alguns clássicos do mundo metal. O pai, claro, venceu a discussão e o rapaz, já emburrado, tacou o objeto em cima do painel do carro. Foram necessários poucos minutos para que o aparelho eletrônico servisse de isca e fisgasse logo um assaltante. Um rapaz, aparentemente menor de idade, vestindo uma camiseta rasgada do Real Madrid, abordou o carro pela janela do motorista, apontando um revólver enferrujado para a cabeça do pai. Queria dinheiro, mas nenhum deles tinha mais do que alguns trocados. Então, ordenou ao moleque que passasse o aparelho que repousava em cima do painel. O garoto o fez, só que o pai, sabendo da paixão do filho pelo objeto, intercedeu tentando roubar a arma do assaltante. O tiro entrou pela têmpora esquerda e estraçalhou o cérebro do homem que praticamente morreu na hora. O assaltante fugiu, e o garoto desesperado, saiu do carro, pegou-o no colo e disparou pela avenida com o pai desfalecido nos braços. A cena foi filmada por vários cinegrafistas amadores que, com seus celulares, conseguiram captar o desespero do rapaz aos prantos pedindo socorro.

O caso virou assunto principal nos jornais e telejornais do país, com os canais de televisão explorando as imagens chocantes daquela cena que emocionou o Brasil. O filho virou alvo de entrevistadores e programas de TV que queriam saber em primeira, segunda ou terceira mão, os detalhes mais sórdidos daquele dia terrível. E o garoto foi. Em princípio, para pedir justiça e paz, até que um dia, num desses programas vespertinos apelativos, surgiu o assunto da sua banda de rock chamada Tenores do Rock. O convite para a apresentação do grupo no mesmo programa surgiu imediatamente, e lá foram Oswaldo e seus amigos mostrar seu repertório. Ocorre que, curiosamente, os garotos eram muito bons, daqueles que só não haviam feito sucesso ainda por falta de oportunidade, e após a apresentação naquele canal de televisão bombaram convites para shows e propostas trazidas por empresários que gostariam de gerenciar suas carreiras.

A coisa virou uma bola de neve incontrolável, e em poucos anos os Tenores do Rock foram fabricando sucesso após sucesso, vendendo 3 milhões de cópias em menos de 3 anos. Oswaldo virou sensação mundial e começou a ser chamado para tocar com seu grupo em eventos internacionais, ao lado de bandas como Oasis, Coldplay, Rush e U2. Seu sucesso repentino foi considerado superior ao obtido pela banda Guns And Roses na década de 90, mas seu talento era aclamado até pelos críticos. Poucas eram as vozes que ousavam se levantar  para criticar Oswaldo e sua banda. E assim foi, até o momento auge de sua carreira com a conquista dos Grammys de Melhor Álbum do ano, Canção do ano, Grupo de Rock, Canção de Rock, Álbum de Rock e Melhor Artista Novo. E foi, ao receber esse último prêmio, que Oswaldo resolveu discursar em homenagem ao pai. E quando disse a frase “daria tudo para tê-lo aqui comigo”, sentiu um vento gelado soprar em sua nuca e percebeu todos a sua volta paralisados como se houvessem sido congelados por um tempestade de neve. Tudo imóvel, completamente inerte. Até o tempo. Só então percebeu uma figura alta, raquitica, com riso fácil e olhar sombrio, encarando-o.  Não sabia quem era, mas sentiu sua espinha congelar ao observá-la ali, parada, à espreita, como uma ave de rapina. Finalmente, o silêncio foi quebrado por uma simples frase dita pela figura misteriosa “Seu desejo é uma ordem” e, então, um bater de palmas fez com que o tempo ficasse invertido, como carro em marcha-ré.

Oswaldo viu o tempo voltar e toda sua trajetória de sucesso sendo apagada por uma enorme escuridão que envolvia seu futuro que agora virava passado. Era como um carro dando ré e vendo a estrada à sua frente sendo apagada por uma enorme borracha negra, deixando nada além de um vasto e tenebroso breu. Shows, entrevistas, mulheres, tudo se apagando como se nunca houvesse acontecido, exceto pelas memórias gravadas em seu cérebro. Três anos – os melhores de sua vida, aliás – sendo evaporados como água no deserto. Sempre houvera sonhado em fazer sucesso com a música, e agora que atingira seu objetivo, via tudo escorrendo por entre seus dedos, sentia fugir da boca o gostinho do sucesso.

Até que, depois de tudo de bom, viu sua imagem carregando o pai pela avenida beira-mar. Reviveu de trás para frente, todos aqueles momentos difíceis de ser esquecidos. Ele deixando o pai semi-morto no banco e andando de costas até o seu lado do carro. A visão do assassino voltando até o carro com seu i-pod na mão, e tornando a apontar a arma na cabeça do pai. A bala saindo do crânio de Wallace, consertando o estrago que havia feito até entrar novamente no cano do revólver enferrujado. As ameaças preferidas pelo criminoso, que faladas de trás para frente seriam intraduzíveis, mas que haviam permanecido gravadas na memória de Oswaldo por todos aqueles anos. Tudo sendo rebobinado como fita VHS até o ponto crucial em que o garoto entrega seu aparelho ao assaltante. Então, tudo para (com a reforma gramatical esse “para” não tem mais acento) novamente e, como num apertar de “PLAY”, passa acontecer em tempo real novamente. Dessa vez, porém, Oswaldo, ciente da reação do pai, consegue impedí-lo de tentar recuperar seu aparelho, e o assaltante vai embora sem saber o quão perto ficou de se tornar um assassino.

O garoto, agora, chorava emocionado ao abraçar o pai que não via há três longos (apesar de bons) anos. Wallace, sem saber de tudo que o filho sabia, pedia calma ao garoto que apenas lhe parecia assustado com o assalto. A “fita”, então, passou do “PLAY” para o “FAST FORWARD” e o garoto pode ver sua vida com a presença do pai. Observou como grudara no pai naqueles dias que sucederam o assalto e como sua presença o fazia feliz. Então, tudo voltou ao normal e só daí percebeu que sua banda não havia explodido. O Oswaldo em “FAST FORWARD” não conseguira as mesmas oportunidades conseguidas pelo primeiro Oswaldo, pois como o pai não levara um tiro durante o assalto, a cena do garoto correndo com o pai no colo jamais acontecera. Dessa forma, não houve convites para programas e nem empresários interessados. O tempo continuou passando em “FAST FORWARD” e um ano pareceu pouco mais que um minuto. Os ensaios durante a madrugada somados à falta de expectativa e oportunidade foram minando os componentes da banda, até que, então, veio o golpe fatal: O pai de Oswaldo sofreu um derrame enquanto trabalhava em sua oficina. E pode visualizar as consequências daquela fatalidade. O pai não podia mais trabalhar por causa da sequela que impedia os movimentos completos dos membros esquerdos, com isso, sobrou para ele a responsabilidade de cuidar da oficina, que era o sustento dos dois, e, cada vez mais, a banda foi sendo deixada para trás. Passou a seguir os passos do pai, vivendo sua vida suburbana e cuidando da oficina – além do pai enfermo, claro! O Oswaldo do presente observava inerte aquele futuro que lhe fora reservado caso o pai tivesse sobrevivido àquele assalto na praia. Viu, então, alguns anos mais tarde, quando as lembranças da banda Tenores do Rock não passavam de vento na memória do Oswaldo “FAST FORWARD”, o pai falecendo vítima de um segundo e fatal derrame.

A partir daí, o tempo parou novamente, e aquela possibilidade de futuro começou a ser também rebobinada. Tudo foi se apagando assim como havia acontecido com aquela primeira experiência, com a escuridão se apossando de tudo. Até que, novamente, se viu dentro do carro diante do assaltante e do pai petrificados, assim como todo resto ao seu redor. Foi quando a estranha criatura reapareceu na frente do carro. Ali, parada, ela fuzilava o rapaz com os olhos esperando que ele entendesse o grande dilema que lhe fora imposto. Sucesso ou Pai. Não teria os dois. Essa era a decisão. Uma vida de sucesso, fama e dinheiro ou a sobrevivência do pai e todas as consequências que ela traria para sua vida. A criatura, então, abriu os braços e Oswaldo sabia que no bater das palmas teria que decidir se impediria ou não o pai de reagir. Cruel, muito cruel, ele pensou com os olhos fechados. Foi quando ouviu a palma estalar, “ressuscitando” o mundo.

Acredito que a decisão de Oswaldo seja muito pessoal para ser contada aqui, mas e você? O que faria?