O Passo do Elefantinho

Os quase duzentos quilos de Vanusa eram um nítido incômodo em sua vida, mas nada que pudesse ser comparado às gozações a que era submetida. As pessoas pareciam não perder uma oportunidade que fosse para tecer comentários jocosos e humilhantes em troca de algum par de gargalhadas maldosas. Era o conhecido “perde-se o amigo, mas jamais a piada”.

Amigos, quem dera os tivesse. Fato era que o temor de achincalhamentos a fazia pouco aberta a novas amizades. Família, não tinha. Apenas um punhado de primos que fariam a ela mais mal do que a maior parte dos estranhos. Talvez a solidão fosse seu destino; e a comida, sua melhor amiga.

Após anos de procura e incontáveis “nãos” muito mal justificados, Vanusa conseguiu um emprego de recepcionista, e, por mais incrível que pudesse parecer, numa clínica de emagrecimento. Talvez ela servisse como psicologia reversa para as clientes, daquelas do tipo: “tome uma atitude ou fique assim”, mas o que importava era o salário no final do mês.

Como os carros, ao menos os populares, não eram apropriados para uma pessoa com seu grau de obesidade, Vanusa pegava, todos os dias, um ônibus até a clínica. E foi justamente isso que acabaria por transformar sua vida.

Cidade pequena pode ser um paraíso para muitos, mas, para alguns poucos, pode se transformar num verdadeiro inferno. Como as pessoas tinham os mesmos hábitos, horários e destinação, era comum encontrar no ônibus as mesmas pessoas indo e voltando do trabalho. Dessa forma, Vanusa encontrava-se, quase todos os dias, com Carlos. O homem, que tinha mais ou menos 40 anos de idade, era um conhecido piadista local e, fica desnecessário falar que viu, na obesidade da mulher, um prato cheio para piadas. Todos os dias assim que ela entrava no ônibus, lá vinha ele com comentários jocosos ou musiquinhas incovenientes do tipo: “Olha o passo do elefantinho…  veja como ele é bonitinho”.

E, assim, os meses se passaram, sempre com as piadas acompanhadas por uma boa dose de risadas e olhares maldosos. Mas, a vida é inexoravelmente surpreendente, e, um certo dia, a bebida e o sono de um motorista irresponsável colocaram o destino de todos os passageiros nas mãos de Vanusa. Após dormir ao volante e perder o controle do ônibus em uma curva, o motorista acordou assustado freando o coletivo desesperadamente. A atitude, apesar de evitar a queda do ônibus ribanceira abaixo, foi insuficiente para impedir que a parte da frente ficasse flutuando sobre o pequeno abismo. O motorista, então, percebeu que os passageiros deveriam se direcionar para parte de trás, a fim de evitar a queda mortal. As pessoas começaram a caminhar para trás, enquanto as portas eram abertas pelo motorista. Assim que Carlos se levantou, deparou-se com Vanusa no degrau da porta com um sorriso no rosto. Quando os olhares se tocaram, a obesa mulher abanou positivamente a cabeça e cantou: “Olha o passo do elefantinho…”, saindo imediatamente de dentro do ônibus. As outras pessoas não tiveram nem chance. Com sua saída, a traseira empinou e o coletivo capotou ladeira abaixo ao ritmo frenético de gritos desesperados. Quando, finalmente, o barulho cessou, dirigiu-se à beira do abismo olhando para baixo. A visão daquilo que sobrara, apesar de terrível, a fez sentir-se leve como nunca.

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