Sala de Espera

Foram longos os minutos enquanto esperava para ser chamado à sala de cirurgia. Acompanhar o nascimento, apesar de parecer lógico, não foi uma decisão fácil. E muito mais difícil seria, caso soubesse da existência daquela maldita Sala de Espera, que nada mais é que um local onde o pai aguarda ser chamado para acompanhar o parto, mas para aquele que lá permanece, assemelha-se mais a um portal tridimensional onde tempo é desproporcional e segundos e séculos têm a mesma duração.

E foi lá, naquela sala de espera, que vi o sofá se transformar em uma máquina do tempo, que me trouxe lembranças do passado e me mostrou as expectativas para o futuro. Afinal, depois desse dia, nada mais seria como antes.

A primeira lembrança foi do meu pai, e em como em meio a toda a alegria vivida durante os nove meses de gestação, faltou-me aquele abraço forte e orgulhoso. Imaginei aquele sorriso inapagável de avô abobalhado ansioso pela chegada do neto. Aí caíram as lágrimas ao visualizar um futuro impossível no qual Paulo e João Gabriel brincavam juntos, avô e neto, meu pai e meu filho. Mas, logo lembrei que, felizmente, há pessoas dispostas a fornecer ao meu filho esse amor físico que meu pai só poderá dar por espírito, e, então, o preto virou cinza. Mas deixo a certeza, Pai, que o João Gabriel sempre ouvirá falar de você.

Depois sorri quando pensei em minha mãe. Sorri por saber que esse amor ele terá oportunidade de receber, incondicionalmente, para sempre. Sorri mais ainda ao imaginá-lo dizendo estar com saudades da Vovó Lygia, e fazendo com ela o que bem entender, assim como o pai fez quando criança. Pensei na minha irmã, no meu irmão e em minha amada sobrinha. Pensei em como estamos reiniciando nossa família, e como temos todas as possibilidades de sermos felizes. Pensei na família da minha esposa, hoje minha família também, e no amor, igualmente incondicional, que eles reservam ao meu filho. Pensei nos amigos, e nos filhos que eles terão, formando também, ao nosso lado, suas famílias.

Enfim, pensei na Renata, minha amada esposa, e no presente que dali a pouco ela me daria. Pensei na inevitabilidade do destino e em como as coisas já estão escritas. Lembrei de cada minuto desses 6 anos juntos, e em como eles virarão 60 um dia. Aí desabei quando vi nosso futuro. Um choro alegre, vindo de um homem feliz e completo, que enxergou nada mais que felicidade.

E, finalmente, quando a enfermeira chamou “acompanhante da Sra. Renata”, a única coisa que veio a minha cabeça foi a resposta: “Para sempre!”

TE AMO JOÃO GABRIEL! VOCÊ É A LUZ NO INÍCIO DO MEU TÚNEL!

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Ah, Que Saudade do Meu Ernesto…

Ah, que saudade do meu Ernesto…

Saudade do meu companheiro, meu marido, meu amigo. Tantos anos passamos juntos, agora, há tantos outros estamos separados. A sua metade da cama permanece vazia, intocada, perfeitamente imaculada, preenchida somente pela melancolia e pelas lembranças de nossos momentos mais íntimos.

Ah, que saudade do meu Ernesto…

Saudade de seus acertos, mas, principalmente, de seus erros. Erros tolos, simplórios, e, por isso, tão humanos. Sinto falta da forma como você exibia seus defeitos, apenas para realçar minhas qualidades. Não pelo prazer de me sentir perfeita, mas pelo conforto de ser plenamente amada.

Ah, que saudade do meu Ernesto…

Saudade do amigo com quem compartilhava, desde os assuntos mais sérios, até as fofocas mais superficiais. Saudade do marido capaz de me inflamar ao mais leve toque. Que me fazia ruborizar ao revelar seus mais ardentes desejos, fazendo com que eu deixasse de ser a esposa e a mãe, mesmo que somente por alguns momentos, e me sentisse apenas mulher. Saudade do pai dedicado e disciplinador, capaz dos gestos mais sublimes, e dono de um amor incondicional.

Ah, que saudade do meu Ernesto…

Saudade das confidências, do abraço na varanda, do cafuné ao pôr-do-sol. Seu traços mais marcantes xerocopiados no rosto de nosso filho, faz-me lembrar de cada momento que passamos juntos. E que trabalho soberbo fizemos com nosso guri, hoje um homem honesto, de caráter indubitável, ótimo pai e marido. De fato, fizemos tão bom trabalho, que hoje ouso pensar mais em mim. Não quero mais sentir sua falta. Estou cansada. Muito cansada. Quero sossego. Quero teu colo.

Chega de Saudade. Não quero mais esse negócio de você longe de mim. Pode abrir os braços, meu amor. Eu estou chegando.

Olga colocou papel e caneta de lado. Acomodou-se na cama, reclinando com dificuldade as costas no travesseiro da cama. No criado-mudo, um belo abajur de porcelana iluminava o retrato do marido. Deitou na cama, repousando a cabeça no travesseiro previamente arrumado, retirando com cuidado a foto de dentro da moldura. Arrancou, um a um, os diversos eletrodos presos ao seu tórax, que monitoravam seus batimentos cardíacos. Retirou das veias do braço, as agulhas que introduziam soro em seu corpo. Colocou a foto em seu peito, cruzando os braços. Não poderia se despedir de seu filho Álvaro. Ele não a deixaria partir. Derramou uma última lágrima, antes do silêncio ser cortado pelo apito agudo do monitor cardíaco externando a ausência de pulsação.

Poucos minutos se passaram antes que o filho percebesse o ocorrido. Entrou correndo no quarto, deparando-se com o corpo enrijecido de Olga. No rosto pairava um ar de leveza, banhado por um sorriso de satisfação. Ao lado do corpo, o emaranhado de fios e eletrodos. Sobre o corpo, planava a foto de seu pai. Havia entendido tudo, e respeitava a decisão da mãe. Acendeu o abajur e avistou o papel deitado sob a caneta esferográfica. Aproximou-o da visão, lendo:

“Ah, que saudade do meu Ernesto…”

 

                                                                 FIM

Peço a todos aqueles que lerem esse conto, o pequeno trabalho de tecer um comentário sobre o mesmo, expondo suas críticas ou elogios, uma vez que inscreverei o mesmo em um concurso de contos, que tem como tema a frase “Chega de Saudade: Não quero mais esse negócio de você longe de mim” em homenagem aos 50 anos da música “Chega de Saudade”, composta por Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Sua opinião é de suma importância para este humilde escritor.

 

Published in: on abril 28, 2008 at 3:07 pm  Comments (15)  
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Crônica de uma Saudade

Pai, sinto muito sua falta. Muito mesmo. Gostaria de ainda tê-lo ao meu lado. Gostaria de poder aprender um pouco mais com você. Quantas vezes você me deu conselhos certos e verdadeiros, que eu deixei o vento levar. Quantas vezes eu te disse não, quando não me custaria nada lhe dizer sim. Quantas vezes me disse sim, quando o mais fácil era ter me dito não.

Fico pensando o que eu mudaria se tivesse chance: meu jeito, minha boa-vontade, meu companheirismo. Sei que me amava, independentemente dos meus defeitos, mas poderia ter tido menos deles. Ou, ao menos, lhe mostrado mais minhas qualidades. Recebê-lo mais vezes com sorriso, e menos vezes com indiferença. Mais vezes com abraços, e menos vezes com acenos. Acredito ter sido um bom filho, mas tenho certeza de que poderia ter sido muito melhor.

Tantas foram as vezes em que deixei de ficar ao seu lado por algo fútil ou sem importância. E hoje, por ironia do destino, trocaria tudo só por mais alguns minutos com você. Preciosos minutos. Minutos de redenção. Inúmeras foram as oportunidades de lhe dizer o que sentia, e nem sempre aproveitei. Hoje, esses poucos minutos bastariam. Queria ter sido mais filho, e menos humano. Você se foi e levou consigo um pedaço do meu coração. Desculpe não dá-lo por inteiro, mas ainda estou cercado por pessoas que me amam, e também precisam do meu amor.

Às vezes me pego, na calada da noite, chorando sua ausência. Outras vezes, rio sem perceber, invadido pela memória de tudo que vivemos juntos. Na maioria das vezes, apenas torço para ter me tornado alguém de quem você possa se orgulhar.

Queria lhe dizer, também, para ficar tranquilo. Aqui embaixo me cerquei de pessoas carinhosas, que sempre me ajudaram a superar obstáculos. Um padrasto companheiro e amigo, um novo “pai” exemplar, uma porção de amigos que juntos formam um conjunto de suas maiores qualidades. Não podia ter superado sua perda sem eles. Além disso, a aproximação que meus irmãos e eu tivemos, facilitou bastante essa passagem para mim. Acredito estarmos muito mais unidos hoje. Pena, também, você não ter tido a oportunidade de ter conhecido sua nora. Definitivamente, uma grande mulher. Ela me fez uma pessoa muito melhor.

Poderia continuar escrevendo por horas, pois estou abarrotado em sentimentos diversos: alegria, tristeza, alívio, receio, principalmente, amor. Mas quero ligar para minha mãe e dizer que a amo. Já faz um tempinho que não digo, e não quero cometer o mesmo erro, afinal a amo tanto quanto sempre o amarei.

Ricardo Ragazzo

Esse texto é uma homenagem à memória de Paulo Roberto Ragazzo, acima de tudo PAI.

Published in: on abril 10, 2008 at 12:21 pm  Comments (15)  
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