Duas Vidas

Agradeço de antemão ao  grande Aimone pela belíssima sugestão para esse conto.

Patrício era mais um imigrante brasileiro a tentar ganhar a vida fora do país. Escolheu como local de refúgio a paradisíaca Califórnia, mais especificamente, o Boulevard de Santa Mônica. A cidade era uma delícia, beirava o gelado Oceano Pacífico, e era sempre invadida por inúmeros turistas que vinham atraídos pelas belezas naturais, e suas avenidas repletas de bares e restaurantes, e em um desses, mais especificamente o “Bon Vouyage”, trabalhava nosso conterrâneo brasileiro.

A vida lá era dura, a praia pouco frequentara desde que chegara há 6 meses, pois passava a maior parte do tempo trabalhando como garçon no Bon Vouyage, sempre buscando formas e maneiras de trabalhar o máximo de horas possível por semana – afinal lá o salário era de U$ 10,50 por hora – e quanto mais trabalhasse menos tempo tinha para gastar o seu suado dinheirinho. Em um bom mês, com muitas horas trabalhadas, conseguia faturar quase U$ 3.000,00, perto de R$ 7.000,00, quase dez vezes o que ganharia fazendo o mesmo serviço aqui no Brasil, mas bem menos do que receberia caso seu sonho de ser jogador de futebol profissional tivesse se realizado.

O sonho ainda era bem vivo em sua cabeça, afinal fazia apenas alguns anos que abrira mão dele, após um pênalti perdido na final da Copa São Paulo de Juniores em 2002. O erro causou a perda do título, além de estampá-lo nas capas de jornais e programas esportivos, já que o erro havia sido consequência de um humilhante escorregão que o fizera chutar a bola com a força e habilidade de uma criança de 3 anos de idade. Fora nesse momento, que perdera a esperança de se tornar um jogador de futebol bem sucedido. Sem contar que, logo depois, um amigo que havia embarcado na aventura de morar e trabalhar fora do país, voltara à sua cidade em ótima situação financeira – claro que se comparado aos amigos de infância – e apoiou Patrício na decisão de abandonar o futebol e perseguir aquela realidade mais palpável.

Os pensamentos e lembranças do garçon foram interrompidos por um súbito ronco de motor que assemelhava-se aos rujidos de um leão faminto. Na porta do restaurante, um homem descia de sua moto envenenada, vestindo uma belíssima jaqueta de couro e óculos escuros de grife famosa. Não chegava a ser muito bonito, mas Patrício achava que seu estilo devia chamar a atenção de muitas mulheres. O homem entrou no restaurante sem causar alarde, e apesar da chegada triunfal, ninguém além dele pareceu curioso ou interessado em observá-lo caminhar até uma das mesas vazias. Se estivesse no Brasil acharia a postura daquelas pessoas muito estranha, mas nos EUA todos pareciam mesmo mais reservados, cuidando de suas próprias vidas.

O homem aproximou-se de Patrício, sentando na mesa bem à sua frente:

– Você que atende essa mesa aqui?

– Sim Senhor

– Da onde você é? – perguntou o homem percebendo o sotaque carregado do garçon.

– Brasil, senhor.

– Não acredito! – exclamou o homem mudando do inglês para o português – Que maravilha é ver um conterrâneo por essas bandas.

O homem já falava um português mais arranhado, infiltrando palavras em inglês no meio de sentenças em português, coisa comum para aqueles que ousam morar fora do país. Antes que Patrício pudesse continuar sua análise, o homem prosseguiu:

– Cara, Qual seu nome? – ouviu a resposta prontamente – Então, Patrício, o que te traz aqui para Califórnia? Conte-me tua história.

Fazia tempo que o garçon não encontrava alguém tão simpático como o cliente à sua frente. Sem pensar duas vezes contou como havia seguido os passos de um amigo, e que pensava em passar alguns anos nos EUA antes de voltar para o Brasil, e como sentia falta das pessoas, da família e daquela comida caseira…

– Nem me fale, Patrício! – interrompeu o cliente – A comida  do Brasil é imbatível mesmo. Um arroz com feijão; uma farofinha; um bife acebolado com batata frita… hummm… que delícia! Mas, por outro lado, aqui eu tenho muito mais facilidade em manter meu peso, afinal não como junk food (macdonald´s, burguer king) e poucos restaurantes brasileiros conseguem trazer o mesmo tempero para os pratos servidos aqui, então acabo comendo bastante salada e frango grelhado, o que pra mim é ótimo por causa da profissão.

– E o que o senhor faz? – perguntou Patrício ainda acanhado e em tom respeitoso.

– Ô Patrício, que isso, rapaz? Senhor tá no céu, pô! Cara, eu faço a única coisa que um brasileiro pode fazer pra ganhar dinheiro fora do Brasil se não for rico de berço: Sou jogador de futebol.

Os olhos de Patrício se arregalaram. Primeiro surpreso, pois a moto e roupa que ele usava indicava que era um jogador bem sucedido, e, ainda assim, ele nunca ouvira falar desse jogador antes. Se bem que agora começava a acompanhar a MLS (Major League Soccer) – o campeonato de futebol nacional – e não conhecia nenhuma das equipes da competição. Paulo – ou Paul The Tractor, como era conhecido nos EUA – integrava a equipe do sul da califórnia chamada San Diego Rockets há pelo menos 6 anos. A interessante conversa estendeu-se por vários minutos, adentrando os mais minuciosos detalhes, com Paulo, ou melhor, Paul The Tractor, inclusive, revelando os U$ 2.000.000,00 anuais que recebia entre salários e contratos esportivos. Essa intimidade quase que automática, apesar de estranha, era comum entre pessoas de um mesmo país que se conheciam em outro lugar do mundo. Não demoraria muito para Paul começar a falar até mesmo de sua vida sexual. Patrício ficou tão envolvido pela conversa que nem percebeu o momento em que se sentou na mesa de Paulo, enquanto outros clientes aguardavam seus pedidos.

O homem da jaqueta de couro continuou contando sua história de vida – que se assemelhava em muito à história dele próprio – e Patrício passou a observar que aquele rapaz tinha feições muito parecidas com as suas. O nariz era mais afinado, o cabelo mais liso, um pouco mais musculoso, a pele mais bem tratada, isso sem dúvida, mas debaixo de tudo aquilo, era como se ele parecesse ser seu irmão mais velho. Até que o homem começou a relatar as dificuldades no início de carreira e como havia passado um momento humilhante alguns anos atrás ao escorregar em um pênalti decisivo, e coisas do tipo. Patrício olhou espantado para o homem, o rosto pálido como a neve deixando claro que algo o atordoara por completo. Aquele estranho homem na sua frente vivia o seu sonho, possuía sua moto preferida, ganhava dinheiro como jogador profissional de futebol e ainda tinha vivido um passado exatamente igual ao seu, além de ter o mesmo nome, já que fora batizado Paulo Patrício Nogueira. Então, o jogador de futebol, percebendo a desconfiança no rosto do outro, abriu um leve sorriso e disse:

– Não fique confuso, meu caro amigo. Eu nada mais sou do que seu futuro, caso você não tivesse desistido tão fácil do seu sonho. Você abandonou tudo ao primeiro obstáculo, e o mais engraçado, é que isso criou muito mais obstáculos em sua vida, e todos eles muito mais difíceis de ser transpostos. – O garçon continuava branco como um fantasma, totalmente paralisado – Patrício, na vida, nós somos aquilo que escolhemos, nada mais, nada menos.

Subitamente, uma mão vinda de trás encostou em seu ombro, fazendo com que se assustasse causando-lhe soluços. Ao olhar para trás, viu Mr. Smith, o dono do restaurante, e mais uma dúzia de clientes observando-o curiosos. “Você está bem?” perguntou o senhor de idade, sem que Patrício entendesse o porque. Pensou em desculpar-se por estar proseando com um cliente em horário de serviço, mas antes que o fizesse percebeu que estava sentado sozinho na mesa do restaurante. Não havia ninguém por lá. Olhou para a frente do estabelecimento e não conseguiu ver a imponente moto antes estacionada à frente. Mas como isso era possível? Seria inviável que o rapaz tivesse saído sem que notasse o ronco daquele motor. Estava ficando louco, só podia ser isso. Conversando sozinho, sentado em uma mesa, durante o expediente… só podia ser sinal de que a loucura começava  a vencer a batalha contra a sanidade. Queria ser um jogador de futebol, e no final, nem um bom garçon conseguiria ser.

Seguiu os conselhos de seu patrão e recolheu suas coisas para ir embora mais cedo. Ao sair, dirigiu-se até o local onde a moto supostamente ficara estacionada. No chão, uma nítida marca de pneu o deixou intrigado, e ao lado dela, um pequeno flyer preto com letras garrafais em vermelho:

SAN DIEGO ROCKETS TRY-OUTS / SECOND AND LAST CHANCE / THIS WEEKEND FROM 9 TO 5.

(PENEIRA NO SAN DIEGO ROCKETS/ SEGUNDA E ÚLTIMA CHANCE/ ESSE FINAL DE SEMANA DAS 9 ÀS 17)

A esperança voltou em forma de um leve sorriso e fez os olhos marejarem em um intenso brilho. Então, Patrício saiu correndo para casa. Correu muito, como aquele que foge do fim do mundo, ou, como alguém que persegue um novo futuro.

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