Uma Grande Notícia

A mulher de meia-idade aguardava sentada com o celular preso entre o rosto e o ombro esquerdo, enquanto utilizava as mãos para acariciar os cabelos da filha que começava a despertar de um sono pesado; Assim que alguém atendeu, a mulher levantou-se, dirigindo-se para fora do quarto em que estava, e começou a sussurrar:

– Alô, amor? Tudo bem?… Você tá em casa?… Hã?… ai, que ótimo! Então, aproveita e vem pra cá agora… ela está acordando… O que?… sei… ahã… ainda não pegou o bolo?… Então corre, pois todo mundo da família tá vindo pra cá, e você conhece sua filha, né? Já já ela percebe a festa de aniversário surpresa… Tá! To te esperando, então. Vem logo, hein? Beijo. Eu também. Tchau.

Assim que desligou o telefone, a mulher voltou ao quarto com um leve sorriso que a teria entregado facilmente, caso sua filha não estivesse ainda sonolenta. Sentou-se ao seu lado e reiniciou o cafuné.

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Do outro lado da linha estava o marido, um homem de pouco mais de 55 anos, que aparentava até mais idade em razão da protuberante barriga adquirida com os anos de cervejas e churrascos. Ernesto era seu nome. Visto por todos como um homem calmo e sereno; boa companhia; meio atabalhoado; mas, acima de tudo, tranquilo. Amava a família incondicionalmente, principalmente, Totia, seu grande tesouro. E era para o aniversário-supresa dela que estava atrasado. Tinha que pegar o bolo ainda. Desajeitadamente, correu até a garagem de casa, entrou em seu civic azul e partiu rumo à doceria.

Não gostava de estar atrasado, mas, cronicamente, não conseguia evitar. Isso sempre acontecia com ele. Vivia avoado, dormindo acordado em meio a reuniões contábeis chatas para um homem bem-sucedido como ele. Dinheiro, graças a DEUS, não era problema para ele – não que fosse milionário, longe disso -, mas tinha o suficiente para arcar com todas aquelas futilidades que todos nós desejamos, mas, poucos conseguem ter. Dessa vez, perdera a hora em razão de um longo banho mais do que merecido, mas que estendera-se bem mais do que previra inicialmente. Agora, tinha que pegar o bolo e chegar ao local da festa em menos de 20 minutos. Precisaria correr, mas concluiu que daria tempo.

Alguns minutos depois, chegou a doceria. Antes até do que havia imaginado. Parou o carro em local proibido, pouco se importando com uma eventual multa; afinal, tinha coisas muita mais importantes para se preocupar. A fila era grande, mas a eficiência dos funcionários impressionava. Em menos de um minuto, já estava na boca do caixa sendo atendido por uma bela morena de olhos claros. Entregou a ela seu pedido e aguardou. Infelizmente, para ele, o bolo levou alguns minutos até ser encontrado, fruto de um erro individual, o que o fez perder toda a margem que havia conseguido ao dirigir até ali, acima da velocidade permitida por lei. Agora não teria outra alternativa, socaria o pé no acelerador, novamente.

Entrou no carro apressado, colocando o bolo no banco da frente, e saindo em alta velocidade. Cinco minutos depois, havia perdido a conta de quantos faróis vermelhos havia ultrapassado. Essa festa vai me sair bem cara, concluiu ele. Até que em uma dessas desobediências, não viu um carro que passava pelo cruzamento, quase colidindo em sua lateral, não fosse o agudo de uma buzina que fizera com que ele freasse o veículo com grande reflexo, parando a centímetros da lataria do outro carro. O coração quase pulou pra fora pela boca, e seu pedido de desculpas não acalmou o outro condutor, que o xingava fervorosamente enquanto partia em direção ao seu destino. Ernesto nem retrucou – também nem poderia -, apenas esperou o farol abrir e seguiu para a festa.

Apesar do susto, o homem recompôs-se e voltou a acelerar o automóvel acima da velocidade permitida na avenida em que trafegava. Já estava bem perto, tudo daria certo. Foi quando tomou outro susto ao notar que o bolo, com a freada anterior, caíra do banco do passageiro com a face virada para baixo. Só faltava estar arruinado, pensou aflito. Não quis esperar o próximo farol e abaixou para pegar a caixa. Sentiu, então, uma forte pancada. O estrondo que ouviu foi aterrorizador, de arrepiar a mais brava das almas, e, então, tudo escureceu.

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Célia já tinha uma filha de 17 anos de idade, mas adorava sentar-se no sofá da sala e assistir aos desenhos animados que passavam todas as manhãs. Era como se recuperasse parte de sua infância, ou, até, parte da infância da filha que havia passado tão rápido. Um dia, mamadeira e troca de fraldas, no outro, preocupação com drogas e novas amizades. Se bem que Celina era uma menina bem tranquila e comportada. Adorava praticar esportes e dificilmente saía à noite em baladas que varavam a madrugada. O negócio da filha era acordar cedo e curtir a praia que ficava logo ali do outro lado da rua.

Olhou o relógio e viu que eram pouco mais de 10:30 da manhã de um domingo ensolarado e convidativo. Ouvia as ondas quebrando na areia, misturando-se as vozes dos ambulantes que ofereciam desde biscoitos de polvilho até massagens e carregadores de celular. Gritou o nome da filha, que apareceu logo em seguida, com a cabeça para fora do corredor onde ficavam os quartos.

– Celina, já são 10:30. Você não tem futebol hoje?

– Tenho mãe, mas para falar a verdade, estou um pouco cansada do cinema de ontem. Fui dormir tarde.

– Ah, Celina, perder esse dia maravilhosos para ficar em casa não dá, né? Se eu tivesse a saúde de antes, já estaria lá há muito tempo.

– É mãe, você tem razão. Afinal, um futebolzinho na praia não mata ninguém, né?

Celina foi até o quarto e colocou um pequeno short apropriado para o futebol de areia. A cor verde-marinho chamava bastante a atenção, e caía bem em seu corpo bronzeado. Antes de sair, ajudou a mãe a chegar até a varanda, e desceu os dois andares de escada. Elevador era coisa para velho ou deficiente, pensava ela. Quando estava quase chegando ao calçadão, ouviu a mãe gritar, enquanto acenava com algo na mão. Colocou a mão no rosto para impedir que a claridade incomodasse seus olhos, e só então percebeu que havia esquecido seus óculos escuros em casa. Óculos, aliás, que estavam agora na mão de Célia. Provavelmente os esquecera na varanda ao levar sua mãe até lá, pouco antes de descer. Tomou o caminho de volta em um leve trote.

Célia acompanhava a filha retornar ao apartamento, e, assim como Celina, não conseguiu ver o carro azul se aproximando em alta velocidade. Testemunhou, de camarote, a filha ser arremessada em direção ao parabrisa do carro, ficando apenas com o pé para o lado de fora. Quem estava mais próximo pode observar o corpo do condutor esmagado pelo corpo da garota atropelada. Ambos já sem vida.

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Lincoln caminhava pela ciclovia em direção ao trabalho quando notou um tumulto poucos metros à frente. Assim como todo curioso, sentiu-se compelido a conferir o que havia acontecido por ali, e ao conseguir abrir espaço por entre a multidão, ficou chocado com a visão do acidente. Um corpo mal coberto por um saco de lixo, esmagado dentro de um Civic azul destruído. Essa era a visão. O saco de lixo bailava com a mais leve brisa, e dava a ele e àqueles ao seu lado, parcial visão do corpo, mas o suficiente para perceberem que era o corpo de um homem.

Recuou em direção a uma árvore, buscando apoio para tontura que sentia. Pôde ouvir uma sirene berrando há poucos metros dali. Pelo que comentavam os curiosos, o homem havia atropelado uma menina, que invadira o parabrisa e esmagara seu corpo. Um havia matado o outro. A ambulância já levara a garota e sua mãe para o hospital, mas a menina já partira sem vida. Aquela imagem do homem morto em seu carro o fez sentir-se muito mal, ainda mais quando criava em sua mente imagens da sua versão do acidente. Saiu de perto daquele alvoroço, sentando-se no chão e apoiando suas costas na árvore. E lá permaneceu, abalado, por mais de duas horas. Não conseguia tirar aquela visão da cabeça. Por que tinha que ser tão curioso? Estava em um transe total quando ouviu seu celular tocar; só podia ser seu chefe, pensou logo. Enfiou a mão no bolso da calça para pegá-lo, mas ao tirá-lo de lá, percebeu que não era ele que tocava, e sim um celular “sem dono” caído logo ali ao seu lado. Esperou alguns segundos para ver se alguém se manifestaria, e como isso não aconteceu, atendeu o telefone. Não podia ouvir qualquer telefone tocar, sem que o atendesse. Sempre fora assim.

– Alô?… Quem é?… Alô?… Aqui é o Lincoln… Não sei, minha senhora. Acabei de achar esse celular no chão… Alô? Alô?

A pessoa do outro lado da linha havia desligado; ficou pensativo, imaginando de quem poderia ser aquele telefone abandonado, e só então viu sangue na mão que segurava o aparelho. Olhou com mais atenção e percebeu o visor avermelhado com o líquido viscoso, e os botões do teclado também. Aquele telefone devia ser do homem morto no acidente. A batida, provavelmente, fizera com  que o telefone voasse para fora do carro e parasse somente ali. O coração disparou quando percebeu que aquela mulher ao telefone, possivelmente era sua esposa; e que ainda não sabia nada sobre o que tinha acontecido com o seu marido. Apavorado, pensou em jogar o telefone no chão e ir embora, mas lembrou-se que havia dito seu nome à esposa desavisada, então, resolveu levá-lo até um policial próximo e explicar o que havia acontecido.

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A demora do esposo e a chegada dos familiares fez com que Leila iniciasse a festa mesmo sem bolo e sem a presença de Ernesto. A filha fazia 18 anos de idade, mas seu problema crônico no coração acabara com a chance de realizarem a mega-festa que a garota sempre pedira. Quem sabe no próximo ano, né? – dizia ela. Fazia alguns meses que “viviam” naquele hospital, internados dia e noite à espera de um coração para Totia. O dificuldade era o tipo sanguíneo da filha: O negativo. Isso queria dizer, em resumo, que a garota era doadora universal, mas só podia receber sangue de um outro O negativo; porém, se o problema fosse somente transfusão de sangue, nem seria tão grave, mas ela precisava de um coração apto a ser transplantado, de uma pessoa que fosse do mesmo tipo sanguíneo e que tivesse uma família que autorizasse uma doação de órgãos. Com isso, os meses iam se passando e as chances de Totia ter seu quadro clínico agravado ficando maiores. Por isso, que toda a família comparecia ao hospital para celebrar seu aniversário de 18 anos; afinal, ninguém dizia em voz alta, mas aquela poderia ser sua última festa, e, exatamente por isso, que não entendia o atraso de Ernesto. Já devia ter chegado há horas. Pegou seu celular e ligou para o marido.

– Alô!… Como assim quem é, Ernesto? Onde você está?… peraí! Quem tá falando?… Lincoln? Quem é você? Cadê o meu marido?

Nesse momento o médico de Totia, Dr. Oswaldo, entrou na sala pedindo para falar urgentemente com Leila. A mulher desligou o celular na hora, e caminhou aflita até o homem de branco. Temia por notícias ruins sobre o marido, e acompanhou-o para fora da sala. De dentro do quarto, os convidados e a aniversariante observavam com atenção a conversa entre os dois. Aliviaram-se quando viram Leila abraçar o médico efusivamente, com um largo sorriso no rosto. Voltou correndo até o quarto, mas antes que pudesse falar, Totia apressou-se:

– O que foi, mamãe? Más notícias? – questionou ela, já torcendo para ser contrariada.

– Não, minha querida, é uma grande notícia. Acharam um coração para você. Já estão preparando a mesa de cirurgia. Te passaram à frente da lista, pois seu caso é especial. Minha filha, você vai receber um coração novinho em folha.

As pessoas começaram a se abraçar emocionadas com aquela notícia maravilhosa. Totia receberia seu tão sonhado coração naquele dia ainda. Em meio à choradeira, a garota perguntou:

– De quem é o coração, mamãe?

– Não sei, minha querida, não sei. O Doutor só me disse que é de uma garota que foi atropelada algumas horas atrás. Ele não me disse mais nada.

– Mamãe, eu gostaria que rezassemos um pouco em homenagem a essa menina que perdeu a vida. A desgraça dela é minha sorte, e o mínimo que podemos fazer é orar por sua alma. – Totia completou, surpreendendo a todos.

As pessoas ajoelharam-se em volta da cama onde Totia repousava havia meses. Todos oraram emocionados, seguindo o pedido da garota. Todos, menos a mãe. Precisava contar as boas novas ao marido, e, sinceramente, não lamentava a morte da menina; afinal, sua partida significava uma chance para sua amada filha. Discou o número do telefone e aguardou alguns segundos, até que um homem, que não era seu marido, atendeu o telefone.

– Alô? Eu gostaria de falar com o Ernesto. – afirmou ao perceber a voz estranha.

– Quem fala? – perguntou a voz do outro lado da linha.

– Leila, a esposa dele! Quem é que tá falando, hein? Cadê o meu marido?

– Dona Leila, aqui quem fala é o Sargento Delgado. Tenho um péssima notícia… veja bem, houve um acidente com o seu marido e…

Seja Bem-vindo, Sr. Nogueira

A sala em que o homem aguardava ser chamado, apesar de pequena, era bem aconchegante. As paredes eram pintadas com uma cor leve que ele não conseguia identificar com precisão, e a poltrona na qual estava sentado era mais confortável que muita cama que experimentara por aí. As paredes estavam repletas de quadros com fotografias de pessoas desconhecidas, todas com um belo sorriso no rosto e um olhar de esperança e satisfação. Aguardava já havia uns 10 minutos pelo menos, e segurava em sua mão uma das misteriosas cartas que vinha recebendo em sua casa nas últimas semanas:

“SR. NOGUEIRA,

A SEU SONHO, NOSSO SONHO TEM O PRAZER DE INFORMÁ-LO QUE SEU PERFIL FOI SELECIONADO POR NOSSA EMPRESA PARA RECEBER NOSSOS SERVIÇOS.

SERVIMOS SOMENTE UM SELETO GRUPO DE PESSOAS POR ANO, E TEMOS COMO OBJETIVO REALIZAR SEUS SONHOS A CUSTO PRATICAMENTE ZERO.

VENHA NOS FAZER UMA VISITA.

ANDERSON GIBRALTAR

P.S.: ESSA PROPOSTA É VÁLIDA ATÉ 19 DE MAIO DO CORRENTE ANO.”

E lá estava ele agora, Sr. Nogueira – o homem ria toda vez que via seu nome escrito desse jeito, já que nunca havia sido chamado assim por ninguém -, há dois dias do prazo final, na recepção daquela empresa que jamais ouvira falar antes (nem as buscas pela internet o ajudaram), curiosamente aguardando a explicação de todo aquele mistério.

– Sr. Nogueira – ouviu uma voz chamando enquanto novamente abria um leve sorriso de satisfação – faça o favor. – completou a recepcionista indicando o caminho a ser seguido.

Ele se levantou imediatamente e prosseguiu em passos largos até a sala indicada. Lá se encontrava um homem que aparentava não mais que 40 anos de idade, vestindo um suntuoso terno de grife, gel nos cabelos e gravata de seda. O homem ficou em pé, revelando uma altura imponente e um largo sorriso receptivo.

– Seja bem-vindo, Sr. Nogueira, é um prazer conhecê-lo pessoalmente. – disse o homem levando sua mão ao encontro da dele – Eu me chamo Anderson Gibraltar (Nogueira reconheceu como sendo o nome que constava na carta) e eu sou o fundador/presidente dessa organização, a SEU SONHO, NOSSO SONHO. Nós estamos no mercado há mais de 20 anos realizando os sonhos daquelas pessoas que nós consideramos merecedoras do nosso serviço. Bom – disse o homem interrompendo seu próprio raciocínio -, posso ver em seu rosto que o senhor está repleto de perguntas para fazer, portanto, acho melhor parar de falar e esclarecer suas dúvidas.

– Para ser sincero, devo admitir que estou aqui por mera curiosidade – confessou Nogueira percebendo pela feição de Anderson, que não relatava nenhuma novidade para ele -, pois não entendi exatamente o que vocês podem fazer para me ajudar.

– Sr. Nogueira, em primeiro lugar, o senhor deve entender uma coisa: Nós sabemos tudo a seu respeito. Tudo mesmo. Desde seu time de futebol, cores preferidas, tipos de mulheres, até a aversão que o senhor tem por alguns tipos de tecidos. Não há nada que possa me relatar aqui, que eu já não tenha lido nesse seu profile que me foi entregue – afirmou enquanto abanava uma grossa pasta azul-marinho com as mãos. – Nós da SEU SONHO, NOSSO SONHO sabemos, por exemplo, das cinco pontes de safena que o senhor possui em seu coração, e como essas operações, apesar de parcialmente cobertas pelo seu plano de saúde, deixaram o senhor afogado em dívidas gigantescas.

– Então, vocês também sabem que não tenho um só real para dar-lhes em pagamento, não sabem? Que todo dinheiro que recebo da minha aposentadoria por invalidez, somado ao salário que tiro mensalmente com minha barraquinha de hot-dog clandestina, já estão totalmente comprometidos, certo?

– Sr. Nogueira, sabemos até sobre os 5.000 reais que o senhor recebeu de herança pela morte de sua tia Matilda, e que repousam nostalgicamente escondidos debaixo de seu colchão.

Os olhos do homem arregalaram-se transmitindo todo espanto que sentia naquele momento. Nunca contara nada à ninguém sobre aquele dinheiro, afinal de contas devia não somente alguns empréstimos bancários, como também a amigos e vizinhos. Não era caloteiro, não mesmo, mas precisava de uma segurança para sanar algum possível imprevisto que pudesse surgir. Seu rosto ficou vermelho de raiva no momento em que bradou indignado:

– VOCÊS, POR ACASO, ANDAM ME ESPIONANDO!?!?!?

– Claro, Sr. Nogueira, de que outra forma poderíamos saber se o senhor era realmente merecedor desse benefício que estamos lhe oferecendo agora? – assumiu Anderson sem constrangimento. – Mas o senhor não se preocupe, pois nossa política é de sigilo total, tanto para vocês, quanto para nós. O senhor não relata nossa existência a ninguém, e nós não espalhamos nenhum daqueles pequenos segredos sórdidos que todos nós escondemos dentro de nossos armários, como, por exemplo, cinco mil reais embaixo de um colchão.

– O que vocês querem comigo exatamente? – questionou o homem já um pouco mais calmo.

– Ajudá-lo, nada mais. E, antes que o senhor pergunte, eu digo o porquê. Por que o senhor é um homem bom, essencialmente bom. Apesar de todas as dificuldades e humilhações que passou nessa vida, sempre manteve seu caráter irretocável, uma honestidade inquestionável e uma vontade de viver invejável, mesmo que com sofrimento e dor. E essas são qualidades que nossa empresa admira e busca em um possível candidato.

– Nunca fiz nada além do que precisei para sobreviver. – retrucou Nogueira sentindo-se lisonjeado como nunca antes na vida.

– Sim, mas muitos em seu lugar teriam buscado “facilidades”, se é que você me entende. – Nogueira acenou positivamente com a cabeça, invadido por um inédito orgulho próprio, então viu Anderson prosseguir seu raciocínio – e é exatamente essa força interna, essa resiliência, que o fez merecedor daquilo que estamos prestes a lhe mostrar, se for de sua vontade, claro.

– Não vejo mal em prosseguir com essa história por mais algum tempo. – respondeu um pouco ressabiado.

– Ótimo! Então, peço para que assine esse livro de Presença aqui, e que, depois, siga-me até a sala ao lado.

E foi o que Nogueira fez. A sala era mais ou menos do mesmo tamanho que anterior, mas no centro havia algo que, para ele, assemelhava-se a uma cadeira de dentista. Achou aquilo intrigante, mas caminhou mais alguns passos até que Anderson voltou a falar.

– Essa é a sala da Infoterapia. É aqui que sua vida começará a mudar definitivamente. Assim que deitar aqui, começaremos o seu “tratamento”. Não se preocupe, pois essa terapia é totalmente indolor. Nós da SEU SONHO, NOSSO SONHO descobrimos uma maneira inédita de injetar informações e habilidades nas partes dormentes do cérebro, ou seja, deixamos nossos selecionados mais inteligentes; velozes; eficazes; competitivos. Durante as próximas duas horas e meia, o senhor receberá uma quantidade de informações que levaria décadas de estudo intenso e aplicado para aprender. Matemática; Física; Cotidiano; História; Biologia; Medicina; Entretenimento; Filosofia; Política; Artes Marciais; Ocultismo, e todo outro tipo de informação que possa imaginar, serão inseridos dentro desses locais inexplorados do seu cérebro, fazendo do senhor uma verdadeira máquina. Além disso, descobrimos que, ao despertar essa parte dormente do cérebro, o indivíduo adquire alguns poderes psíquicos interessantes, que variam de acordo com a pessoa, como telecinese; hipnose; telepatia. Mas nunca conseguimos antecipar se ou qual será despertado. Alguma pergunta?

– Na verdade, não entendi direito nada do que você falou até agora, então só consigo pensar em uma pergunta para fazer. Algo que me chamou a atenção e está me remoendo desde que cheguei aqui. Quem são aquelas pessoas nos quadros pendurados na recepção?

– São apenas algumas das pessoas selecionadas por nós, nada mais. Mas e o senhor, está interessado no tratamento?

O homem nem respondeu a pergunta, já deitando imediatamente na “cadeira de dentista” à sua frente. Anderson riu daquela objetividade e prendeu um eletrodo em cada lado da testa, ligando-o a uma enorme máquina que, ao acender, revelou-se no fundo da sala, que, agora, mostrava-se maior do que parecia anteriormente. Anderson ficou em pé, bem à frente de Nogueira, com os dedos indicadores apoiados nos pequenos círculos presos aos lados da testa. Foi quando, subitamente, sentiu um impacto. De fato, não sentia dor, mas havia um certo desconforto, como se formigas marchassem dentro de sua cabeça. Eram as informações chegando. Os olhos retorciam convulsivamente, e a boca mordia o cilindro de borracha que havia sido colocado entre os dentes pouco antes do processo ser iniciado. E durante os próximos 150 minutos, o “escolhido” debateu-se na cadeira de dentista inadvertidamente.

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Nogueira acordou com a baba escorrendo pelo canto do rosto e um gosto ruim na boca. Quando abriu os olhos percebeu uma nota de R$ 50,00 grudada em seu lábio inferior e uma poça que havia se formado em seu travesseiro. Olhou para os lados e reconheceu o local onde se encontrava. Era seu quarto. Estava em sua casa e, provavelmente, aquela nota que ficara presa em sua boca fazia parte daquele montante que escondia em segredo (nem tão segredo assim agora) embaixo do colchão. Não se lembrava de como havia chegado ali, aliás, a última coisa que recordava fora o momento em que Anderson colocara os dedos indicadores nos eletrodos presos a sua testa. Depois disso, só um enorme vazio, o que era ao menos intrigante, já que o objetivo daquela experiência era encher seu cérebro de informações novas e não privá-lo delas.

Alguns minutos depois, a barriga roncou e, após uma breve inspeção na geladeira de casa, resolveu que faria um pequeno lanche fora. A padaria ficava a poucos metros daonde morava, e ainda por cima tinha preços bem razoáveis, o que fez dela sua primeira opção. Assim que entrou no estabelecimento avistou a bela Maria, uma mulher de 35 anos que aparentava, no máximo, 25. As coxas grossas e suculentas chamavam atenção até dos praticantes do celibato, como o Padre João, e delineavam músculos tonificados que expulsavam qualquer tipo de celulite. O abdômen era perfeito, marcado por pequenos gomos de músculo e invadido por finos pêlos louros e bronzeados, que pareciam fios de ovos brilhantes. Mas eram os olhos azuis que mexiam, de fato, com Nogueira. Tinha paixão por eles, e os dela eram azuis como o mar nos lugares inóspitos ainda não destruídos pela presença do gafanhoto chamado homo sapiens. Adorava encontrá-la pelas ruas do bairro, pois só assim tinha a oportunidade de admirá-la, escondido em algum canto qualquer. Só que dessa vez, podia ver também algo diferente, como se fosse um tipo de raio-x da sua alma, que lhe mostrava o que Maria sentia naquele exato momento. Podia perceber os menores detalhes, como, por exemplo, a hora em que surgiu um pequeno ponto vermelho em sua batata da perna, segundos antes da moça levar a mão até o local e coçá-lo. Era como se tivesse percebido, antes mesmo do que ela, que aquela coceira se manifestaria. Agora, prestando mais atenção, podia observar seu estado de espírito, suas vontades, até seus desejos. Não sabia como explicar isso, apenas pressentia. Aproximou-se da mulher com inédita confiança, e ofereceu-lhe uma bomba de chocolate e um capuccino, o preferido dela, ela diria mais tarde, sem ter idéia de que essa informação, agora, não era nenhuma novidade para ele. Na sua cabeça borbulhavam todos os tipos de assunto, desde política à alta costura. Não havia conversa que ela iniciasse, sobre a qual ele não tivesse absolutamente todas as informações disponíveis a qualquer ser humano. Ele era uma máquina de conhecimento.

A bomba e o capuccino duraram apenas alguns minutos, mas a conversa esticou-se por horas. Maria achava estranho sua atitude, nunca dera muita confiança para estranhos que a abordavam na rua (senão passaria o dia se dedicando a isso, pensava ela, sem falsa modéstia), mas aquele homem pouco atraente, diga-se de passagem, parecia conhecê-la como ninguém em toda sua vida. E aquilo mexia com ela, trazia uma queimação dentro da barriga que em breve se transformaria em um fogo incontrolável, um desejo irreconhecível, que parecia cegá-la impiedosamente, e que a fez convidar-se para ir até a casa dele. Nogueira já começava a entender o que acontecia. A tal de “infoterapia” de alguma forma lhe dava ferramentas que permitiam, através da utilização dessa parte dormente do cérebro, ver o que outros não viam, perceber o que os outros não percebiam e sentir o que os outro não podiam sentir. Sua psique o permitia ler não apenas mentes, mas sentimentos também. Uma sensibilidade extrassensorial que fazia dele alguém muito, mas muito poderoso. Tão poderoso que estava, agora, na cama com aquela deliciosa mulher.

Com o passar dos dias, Nogueira foi percebendo que exercia uma influência poderosa não só sobre aquela cobiçada mulher do bairro, mas praticamente sobre todos com os quais tinha contato. Pelo menos, até o momento, não havia encontrado uma só alma que resistisse a sua conversa, realizando suas vontades e seus desejos. Era tudo muito inusitado. Bastava um mínimo de concentração em um alvo, e Nogueira conseguia entender a pessoa da maneira mais íntima e sublime, surpreendendo-a com comentários e assuntos de seu total interesse, que a deixavam completamente vulnerável as suas vontades e desejos. A Infoterapia era, de fato, muito poderosa, e fizera com que ele praticamente se transformasse em um leitor de pessoas.

Bom, como todos podem imaginar, o poder é algo inebriante e que toma conta de qualquer um, portanto, não levou muito tempo para que Nogueira se dedicasse, quase que exclusivamente, a conquistas baratas e desnecessárias, causando mal-estar e problemas nas vidas de diversos casais que tiveram seu relacionamento abalado ou extinguido em função dele. Não havia como as mulheres resistirem ao seu “charme” por muito tempo. Cedo ou tarde, elas acabavam em sua cama, compelidas por um desejo que elas não conseguiam entender, muito menos seus maridos, bom, pelo menos a maior parte deles. nunca havia tido uma agitada vida sexual, mas, os últimos dias, compensavam os anos de abstinência forçada.

Partiu também atrás do dinheiro fácil, obtendo empréstimos com vizinhos, amigos e até desconhecidos. Depois, as pessoas não entendiam porque emprestavam suas economias para alguém que mal conheciam, mas bastava Nogueira pedir, para que qualquer um cedesse. Torrava tudo em noitadas e mordomias, afinal, quitar o débito não seria problema, apenas “convenceria” o credor a extender o prazo ou, quem sabe, até cancelar a dívida. Largou o trabalho como ambulante e até desistiu de ir buscar o dinheiro de sua aposentadoria, não tinha conta em banco e a fila era sempre muito grande. Transformou-se visivelmente. As pessoas mais próximas, apesar de não resistir a um pedido seu, não apreciavam mais sua companhia, e isso causava tremenda confusão em suas cabeças. “Por que satisfaziam suas vontades quando não gostavam desse novo ELE?” era o que se perguntavam todos, completamente sem resposta.

E assim passaram-se dias, semanas e meses, até que certa tarde, enquanto degustava um sanduíche “gentilmente oferecido” pelo dono da padaria local, um conhecido pão-duro de mão cheia, Nogueira teve o lanche interrompido por uma mensagem recebida em seu novíssimo celular:

A SEU SONHO, NOSSO SONHO PEDE SEU COMPARECIMENTO EM NOSSA SEDE COM URGÊNCIA!

ANDERSON GIBRALTAR”

A mensagem em seu celular chamou a atenção do homem por duas razões: A primeira, foi o fato dele ter adquirido aquele celular no dia anterior, e não ter cedido ainda esse número à ninguém (muitos, apesar de realizar seus pedidos, não o procuravam mais com a mesma frequência), e a segunda, era a palavra “URGÊNCIA” contida no corpo da mensagem. O que poderia ser tão urgente? Será que aquela terapia tinha efeitos colaterais?, então lembrou-se que nunca havia pago nenhuma quantia pelo tratamento, talvez fosse isso, mas dependendo do valor, nem pagaria, afinal de contas, não tinha assinado contrato nenhum com ninguém. Decidiu que permanecer com a dúvida seria pior do que descobrir qual seria aquela “URGÊNCIA” e resolveu que compareceria naquele endereço no outro dia logo cedo.

E foi exatamente o que fez. No outro dia, bem cedinho, lá estava ele sentado na recepção da empresa em que estivera meses atrás pela primeira vez. A sala continuava a mesma, exceto pelos quadros com as fotos dos clientes que não mais se exibiam pendurados por toda parede. Dessa vez, teve que aguardar pouco mais de uma hora até ser chamado, o que o deixou irritado, não só por se considerar um homem, atualmente, poderoso e importante, mas, principalmente, pelo fato de haver tentado convencer a recepcionista a apressar sua entrada sem sucesso algum. Talvez fosse isso. Talvez tivesse sido chamado até ali para recarregar seu cérebro com uma nova sessão de Infoterapia e poder continuar satisfeito com a empresa pela qual fora selecionado. É, provavelmente era isso. Só uma recarga cerebral, nada mais.

Alguns minutos depois, viu a figura de Anderson aparecer por entre a porta da sala adjacente. O homem fitou-o por alguns segundos e depois pediu para que o seguisse até o outro ambiente. Ao entrar, Nogueira percebeu que todos os quadros que antes ficavam pendurados na recepção, agora estavam pendurados naquela sala. Na verdade, havia muito mais quadros aqui do que caberia na sala anterior. Eram milhares. Homens; Mulheres; Nem Tão Homens e Nem Tão Mulheres; Idosos; Adolescentes; Crianças até; todos misturados numa orgia de retratos de fazer inveja à carteira de clientes de várias empresas. Todos pendurados na sala. Aliás, aquela sala era uma novidade para ele, era gigante e circular e bem menos fresca que a anterior. Com certeza, caso ali houvesse entrada para ar-condicionado, este estaria com algum defeito. Reparou que Anderson o encarava com uma cara bem menos convidativa do que da última vez. As mãos apoiadas no queixo eram sustentadas pelos cotovelos firmes na mesa retangular, que continha apenas uma folha de papel em sua superfície, nada de computador, telefone, porta-retratos, pastas de clientes, apenas aquela folha de papel. Nogueira ficou um pouco desconfortável, mas permaneceu quieto até que Anderson começasse a falar:

– Sr. Nogueira, passaram-se seis meses desde sua sessão de Infoterapia e chegou a hora de discutirmos os valores devidos à nossa Companhia.

– Valores? Mas que valores? – respondeu o homem tentando disfarçar uma surpresa.

– Ora, Sr. Nogueira, os valores referentes aos serviços prestados ao senhor. Lembre-se que nossa carta deixava bem claro “REALIZAR SEUS SONHOS A CUSTO PRATICAMENTE ZERO” – enfatizou Anderson franzindo seriamente a testa – mas tenho certeza de que isso não lhe é, de fato, surpresa, tendo em vista que consta do seu contrato conosco. – completou dando dois tapinhas com a mão direita no papel que repousava na mesa entre os dois.

Nessa hora, Nogueira arregalou os olhos tentando entender sobre o que aquele homem se referia. Nunca havia assinado contrato nenhum com eles. Havia sido levado direto da recepção para sala (se sua memória não estivesse pregando alguma peça), de lá para uma pequena sala onde encontrara o homem à sua frente e, de lá, caminhou direto para o início da Infoterapia. Não, realmente não havia assinado nenhum contrato com eles. Aliás, a única coisa que lembrava ter assinado havia sido aquele tal Livro de Presença… a não ser que aquilo não fosse apenas um livro de presença, mas sim algo que o ligasse legalmente àquela estranha empresa. Só então viu o sorriso na boca de Anderson abrir feito guarda-chuva, podia sentí-lo lendo suas entranhas, assim como fazia diariamente com os outros. Sentiu-se invadido, usurpado com aquela atitude, e entendeu o porquê das pessoas não o procurarem mais. Era como uma mulher tomando banho, ao perceber os olhos de um voyeur fitando-a em um desejo repulsivo. Tinha acabado de juntar as peças do quebra-cabeça, e sentia que Anderson sabia disso. Havia sido enganado pelo homem parado na sua frente.

– Qual o preço? – perguntou resignado – Imagino que um poder assim não seja barato – completou.

– Não, realmente não é, mas para alguém que o recebeu sem gastar absolutamente nada, o custo será praticamente zero, como prometido. Queremos 10% de tudo que o senhor conquistou em razão da Infoterapia.

– Mas… mas eu não consegui emprego nenhum, estou sem trabalhar há meses, não recebo valor algum… nem o da minha aposentadoria recebo mais. Vivi de favores todos esses meses. Percebi que dinheiro é um acessório desnecessário quando se tem o poder de conseguir tudo o que se quer dos outros. Eu não tenho dinheiro algum.

– Só os cinco mil embaixo do colchão – corrigiu Anderson a tempo-, mas isso é mixaria perto do que o senhor nos deve. Monitoramos o senhor durante todos esses meses, entre almoços de graça, hospedagem, transporte, empréstimos pessoais, o senhor nos deve aproximadamente essa quantia – afirmou o homem enquanto mostrava ao sujeito um guardanapo com o números escrito à caneta. O valor era altíssimo e levaria tempo para ser levantado por ele, mesmo com a ajuda dos poderes atuais. Então Anderson continuou – Isso sem contar, claro, as mulheres. Bem, considerando que o senhor não comia ninguém a um bom tempo, e levando em conta todas as mulheres que o senhor usou e abusou nesses últimos meses, tomando por base o preço médio de uma acompanhante intermediária, adicionando um bônus pelas orgias experimentadas, posso calcular esse como sendo o valor final do seu débito. – concluiu mostrando novamente o guardanapo, agora ainda mais rabiscado por uma estranha conta rasurada à caneta. Nogueira quase infartou. Sentiu caminhões basculantes trafegando por suas pontes de safena, comprimindo o coração numa dor alarmante. Não tinha como pagar aquilo. Na verdade, poucos teriam condições de quitar uma quantia tão exorbitante. Havia sido enganado, e, agora, não via saída alguma para seu dilema.

– Pela sua reação, vejo que não está pronto para honrar seus compromissos para conosco. Entretanto, há outra possibilidade, para sua sorte.

– Qual possibilidade é essa? – Nogueira inquiriu entusiasmado.

– Consta no seu contrato. – respondeu o diretor, empurrando o papel na mesa em direção ao seu cliente. – Cláusula IX.

O sujeito, esperançoso, nem leu as cláusulas anteriores e foi direto no texto da citada Cláusula IX que regrava: “Em caso de inadimplência da quantia acordada acima, fica o CONTRATANTE sujeito a quaisquer determinações impostas pela CONTRATADA, sejam elas quais forem, de qualquer razão, ordem ou circunstância, sem direito a nenhuma contestação e/ou questionamento daquilo que for requerido, estando obrigado ao cumprimento total e intransferível da obrigação que lhe for imposta”, ou seja, ele estava nas mãos daquele vagabundo que agora o observava com uma altivez irritante.

– Esses termos não seriam validados em nenhum tribunal. Nenhum juiz acolheria essas condições leoninas. Isso é um ultraje!

– Calma, Sr. Nogueira. O senhor nem sabe o que nós queremos, ainda.

– Já imagino que boa coisa não seja. Fale logo, então, seu desgraçado! O que é que eu tenho de tão importante que você possa querer em troca da dívida?

– Nada demais, apenas sua alma.

– Como assim minha alma? – indagou o sujeito sem entender direito o significado daquilo.

– Ora, Sr. Nogueira, sua alma, aquilo que o mantém vivo, sua essência, sua continuidade, enfim, sua alma – completou sem muita paciência.

– E quem é você para querer minha alma? Lúcifer? Satanás? O Coisa-ruim?

– Não, mas estou pleiteando o cargo, talvez daqui uns 500, 600 anos, se conseguir encaminhar bastante almas como a sua lá para baixo.

– Eu.. não… est…tou… te… enten…dendo – falou o homem sentindo uma dificuldade de respirar e uma fraqueza nas pernas que o deixou genuflexo.

– Tsc… Tsc… Tsc… Chega a dar até dó de pessoas iguais a você, mas como gostei do senhor, Sr. Nogueira, vou deixá-lo um pouco mais a par da dura realidade. No inferno, caro amigo, também há competição, também há metas a cumprir. Somos milhares de candidatos pleiteando o Cargo Supremo, dado àquele que vocês gostam de chamar de lúcifer, diabo, satanás, etc. Mas o mal tem prazo de validade também, assim como um jogador de futebol ou um escritor ou qualquer outro profissional, a maldade atinge seu ápice e depois de um tempo rola ladeira abaixo. Ninguém consegue ser mal por toda existência. Nosso atual Mestre Supremo, ou Lúcifer como vocês gostam de dizer, já atingiu seu auge há um bom tempo, e seu espaço está sendo tomado por milhares de formiguinhas como eu, mas só há lugar para um Mestre Supremo, e como a competição é muito acirrada (vocês não fazem idéia das coisas das quais alguns são capazes lá embaixo) eu pensei “O que fazer para conseguir a atenção DAQUELE que nomeará o sucessor?”, e cheguei a conclusão que havia uma única coisa que poderia ser feita de diferente: Trazer para o inferno almas boas. “Mas Lêniter (esse é meu verdadeiro nome) como fazer para levar almas boas para o inferno?”, fácil, respondo eu, basta fazê-las assinar um contrato vendendo sua alma, e depois fazê-las pecar, sem remorso. Simples.

Nesse momento, Nogueira sentia o peito pulsando em um velocidade frenética, o coração acelerado deixava a vista embaçada, e agora Nogueira caía deitado de lado no chão da sala, ainda lutando em busca de ar, como um asmático diante de um ataque de asma mais sério, sem a presença de sua bombinha. Os olhos de Lêniter eram impiedosos e sua boca, mais ainda:

– É o seu caso, meu caro. Um homem que a vida inteira foi honesto e respeitador, que trabalhou nos mais sórdidos subempregos existentes, que sempre apregoou a justiça, mesmo sendo injustiçado pela sociedade e seus governantes, que sofreu problemas de saúde e teve que se endividar para quitar parte do débito que deveria ter sido bancado pelo Estado, a quem prestou conta por toda a vida. Um homem que, apesar de todas as mazelas vividas, sempre preservou seu caráter e sua índole, agora transformado em um porco egocêntrico no momento em que sentiu o gostinho do poder. Você, meu caro Nogueira, poderia muito bem ter usado sua nova condição para ajudar pessoas mais necessitadas, como sempre fez durante sua vida, mas ao invés disso, destruiu casamentos e enganou amigos, vizinhos e parentes. Afastou de si todos aqueles que se orgulhavam de tê-lo conhecido, transformando-se numa pessoa mesquinha, fraca, má. E onde você acha que acaba esse tipo de pessoa? Você poderia ter sido bom, e, caso tivesse sido, hoje nada seria cobrado de você, Cláusula X do seu contrato, mas você infringiu as regras da sociedade em benefício próprio, e agora o preço que lhe imponho é esse: Sua Alma!

Os olhos do homem combalido no chão viravam para cima deixando o globo ocular com uma cor totalmente branca. Da boca saía uma baba amarela fétida, que se assemelhava ao pús produzido pelo corpo humano. A acidez da baba corroía seus lábios e algumas partes do braço em que havia respingado. Era o fim se aproximando. Rapidamente. Lêniter, impassível, continuou:

– Não há pessoas boas no mundo, o que há são circunstâncias que favorecem o aparecimento de bondade nos indivíduos. Seja por medo das consequências; por temer a punição divina; por tranquilidade financeira; ou por conformidade com a falta de perspectiva de vida; algumas pessoas se tornam superficialmente boas, mas basta um pequeno empurrãozinho para que essa máscara caia e o sujeito mostre sua verdadeira essência. Só é possível conhecer alguém de verdade, quando esse alguém tem poder em suas mãos, como seu caso, por exemplo. A diferença entre o remédio e o veneno é a dose aplicada, no seu caso, eu apenas caprichei na quantidade.

O homem mal conseguia manter-se lúcido com a falta de ar nos pulmões. Tentava resistir o máximo possível, mas seu destino já estava traçado. Olhou para os quadros afixados na parede e viu o cimento derreter com o fogo que se formava ao seu redor. A pintura da parede derretia e escorria em direção ao chão, como o mel produzido em uma colméia. O calor se tornava cada vez mais insuportável, e as molduras dos quadros desapareciam em poucos segundos. Só então, o rapaz sofreu o golpe de misericórdia. Todas aquelas pessoas nos quadros, na verdade estavam lá, de corpo presente, acorrentadas, pregadas e algemadas em longas cruzes de madeira e fogo ardente, queimando ali por toda eternidade. Formavam um círculo de sofrimento e pavor, apesar de já parecerem indiferentes a dor. E no meio de todas aquelas cruzes incandescentes, havia uma vazia, imponente, ornamentada apenas por uma placa que dizia: Seja Bem-vindo, Sr. Nogueira. E foi nesse momento, ao entender que passaria a eternidade ardendo naquelas chamas viscerais, que Fausto deu seu último e condenado suspiro.